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TESTE PARA FILHOS DE POSEIDON — JANEIRO

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TESTE PARA FILHOS DE POSEIDON — JANEIRO

Mensagem por Noah Brimmearh em Qua 13 Jan 2016, 02:20

Noah
Brimmearh
I'm the ocean, I'm the sea, there's a world inside of me
ψψψ
O filho de Poseidon

Eu nasci com os olhos bem verdes, cabelo castanho escuro e está entre o liso e o ondulado. Atualmente, meus cabelos caem sobre o ombro. Tenho um estilo um pouco relaxado, eu diria, mas sou vaidoso. Gosto de roupas um pouco mais folgadas e adoro usar camisas com estampas.

Não sei muito como descrever a minha personalidade. É algo difícil pra mim. Dizem que eu sou engraçado e creio que sou bem descontraído. Procuro sempre olhar para o lado bom das coisas. Isso não me torna uma pessoa otimista. Odeio otimismo. Porém, reclamam às vezes que não levo nada a sério. 

Em geral, sou um garoto tranquilo. Eu gosto de aproveitar a vida. Agarro tudo com força e raramente desperdiço uma oportunidade. Eu prefiro, francamente, me arrepender depois do que ficar remoendo algo que deixei de fazer. Tento sempre dar o meu melhor. Sou um garoto prático, não me dou bem com coisas muito teóricas.

Sou um pouco orgulhoso e odeio quando me sinto traído ou enganado. Me considero um pouco rancoroso também. Sou teimoso, cabeça-dura e dramático. Sou genuíno, nunca escondo o que penso. Espontâneo, diria.
Com grandes poderes vem grandes tragédias

Minha história começa antes de eu nascer. Meu avô e minha avó são escoceses. Minha mãe nasceu lá. Quando ela completou 2 meses, a família se mudou para a Georgia. Minha mãe, Margareth Brimmearh, meu tio, Benjamin, na época com 3 anos, minha tia, Daisy, com 6, meus avós, Abraham e Elizabeth, compraram uma fazenda em uma pequena cidade a uma hora de Atlanta.

Minha mãe cresceu no campo até os 14 anos. Quando Daisy, já com 21 anos, resolveu sair de casa, minha mãe e meu tio decidiram ir junto. Os três foram então para Miami, Flórida. E foi lá que eu nasci.

No dia 28 de Agosto do ano 2000, eu dei meu primeiro suspiro. Nascia, próximo à famosa Miami Beach, Noah Brimmearh, filho único de uma mãe solteira de apenas 25 anos. Minha mãe, uma mulher alta e ruiva, com olhos azuis, traços delicados e pele muito branca, conta que era uma noite calma e linda. Ouvia-se do quarto 145, o barulho das ondas quebrando na praia. Pela janela aberta, uma brisa entrava, trazendo o cheiro de água salgada.

Minha mãe, na época, já tinha ido morar sozinha em uma pequena casinha no subúrbio de Miami com um grande Freixo no quintal. Foi lá que cresci, no sobrado verde-água. Era um lugar simples, mas eu amava. Eu dormia no quarto do segundo andar.

Aos cinco anos fui diagnosticado com Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade. Por isso, posso dizer que já estudei em todas as escolas de Miami e das cidades vizinhas. Ou quase todas. Raramente passava mais de um semestre em uma escola. Os professores não tinham paciência comigo e eu sempre acabava fazendo alguma coisa de errado e era convidado a me retirar. Estranhamente, nem minha mãe, nem meus tios pareciam ligar muito para isso. Parecia até que eles esperavam isso de mim, não sei o porquê.

Falando neles, eu sempre tive uma boa relação com toda a minha família. Digo por parte de mãe. Nunca conheci meu pai. Ele deixou minha mãe pouco antes depois de eu nascer.

Meu tio Ben é um homem alto, é ruivo assim como seu pai e minha mãe e tem uma barriga grande. Ele é dono de uma floricultura na orla. Eu passava na loja todo dia, depois de ficar a tarde inteira na praia. Quase sempre ele me dava uma carona para casa. Às vezes até ficava um pouco mais para jantar com a gente. Já com minha tia Daisy eu não convivia muito, ela brigou com minha mãe quando eu estava para nascer, então raramente a visitava.

Todas as férias de verão eu ia para Geórgia visitar meus avós. Eu adorava ir para a fazenda deles. Minha vó cozinha muito bem e Abe é o típico vô de interior e ele sempre tem alguma história para contar. Ele vive falando sobre suas experiências na Escócia. Sempre ficávamos horas conversando na varanda da casa deles. É uma delícia. Minha mãe fica feliz quando vou para lá. Sempre que tento descobrir o porquê disso, porém eles sempre desviam o assunto.

As coisas começaram a ficar estranhas quando eu estava para fazer 11 anos. Voltei da casa próximo do fim das férias. Eu tinha passado duas semanas na Geórgia e, nesse meio tempo, não entrei em contato com a minha mãe. Quando cheguei no sobrado, minha mãe estava fora de si. Meu tio tentava acalmá-la, sem sucesso. Ela gritava, chorava e esmurrava a parede. Completamente sem controle. Nunca havia visto minha mãe assim. Ela era uma mulher doce, quase nunca se irritava, mesmo quando eu era expulso das escolas.

Ben pediu para eu subir e ficar no quarto. Dizendo que estava tudo bem, que minha mãe ficaria bem. Eu não senti firmeza na voz dele. Tampouco, acreditei no que ele falava. Contudo, conhecendo minha mãe, sabia que ela não queria que eu a visse assim, então concordei e me dirigi ao andar de cima. Ainda assustado com a cena, me joguei na cama. Mil cenários do que havia acontecido passavam a toda velocidade pela minha mente. Cada um sendo menos provável que o anterior. Me forcei a dormir, no entanto, era impossível. Toda vez que ouvia o choro de minha mãe, meu coração apertava. Sentia uma dor esquisita no peito e o sono me deixava.

Já eram três da manhã quando ouvi uma terceira voz. Era profunda, tinha um tom sério e, estranhamente, emanava poder. Ela não pertencia nem a Ben nem a minha mãe. Não era de ninguém que eu conhecia. Fiquei ansioso. Algo dentro de mim se revirava com curiosidade. Resolvi abrir a porta e ir devagar até a escada, numa tentativa de descobrir quem estava conversando com eles. Espiei por entre o corrimão, sem nem mesmo respirar, evitando ser percebido.

Um homem alto e forte, de cabelos negros, estava de costas para mim. Vestia uma blusa verde estampada com hibiscos azul-marinho. Ele segurava a mão da minha mãe que estava sentada com seus olhos arregalados, boquiaberta. Um cheiro de água salgada tomava o ar, tão forte que me sentia na praia.

— É hora de eu ir, Maggie. Tem alguém nos observando – eu me escondi atrás de um dos pilares do corrimão – Ainda não é tempo.

De repente, o homem não estava mais lá. Um clarão com tom esverdeado iluminou a sala através da janela. O aroma salgado deixou de existir. Minha mãe e seu irmão permaneceram imóveis. Alguns instantes depois, minha mãe retomou consciência.

— Noah, me perdoe. Eu não queria que você me visse assim.

Ela se levantou e subiu as escadas, me envolvendo em seus braços. Passando a mão em meus cabelos, continuou.

— Você um dia vai entender tudo. Agora, vamos dormir que amanhã você começa o ano em um novo colégio.

Eu me esquecera completamente de que amanhã iria para Saint Jude for Special Folk. Era especializada em crianças que não se adaptavam ao sistema de ensino – mais conhecidas como crianças problemáticas.

Ela me levantou e me acompanhou até o quarto. Deitei-me e Maggie começou a cantar uma antiga canção de ninar, passada de geração em geração na minha família.



Hush now, my story
Close your eyes and sleep
Waltzing the waves
Diving in the deep
 
Stars are shining bright
The wind is on the rise
Whispering words
of long lost lullabies

 

Em pouco tempo me vi com sono e peguei no sono.

Fui acordado pelo despertador que disparava em meus ouvidos um toque metálico. Bati algumas vezes sobre o velho relógio até que ele parasse. Rapidamente me levantei. Peguei um caderno e uma caneta e joguei dentro da mochila de camurça ocre que foi um presente do tio Bem. Peguei uma muda de roupa e desci. O relógio batia 7:30. Em qualquer instante o ônibus escolar buzinaria, anunciando a sua chegada.

— Sorry mãe, não vai dar tempo de tomar banho não – falei comigo mesmo.

Minha mãe já não estava em casa. Notei que meu tio roncava no sofá. Sua camiseta Polo rosa desbotada estava levantada, mostrando a proeminente barriga do quarentão. Tentei não incomodá-lo enquanto me trocava às pressas. Busquei a sacola de papel com o lanche que minha mãe preparou antes de sair e caminhei até a calçada. No mesmo momento, o ônibus chegou.

Subi os degraus e fui me sentar. Meninos e meninas de diversas idades me observavam, analisando cada movimento meu. Como moro perto da escola, eu devia ser um dos últimos a ser pego pelo ônibus, pois ele estava cheio. Um menino com óculos enormes acenou e gesticulou para que eu me juntasse a ele. O resto do ônibus riu. Abaixei a cabeça e fui a passos lentos até onde o garoto se sentava.

— Prazer, me chamo Jeremy – o menino exclamou, um pouco mais alto do que o necessário, enquanto eu me sentava.

Ele era um pouco mais baixo que eu. Seus óculos eram ainda maiores de perto, mais pareciam lupas. A franja do cabelo loiro caía sobre o rosto do menino. Me perguntava se isso não dificultava ainda mais a visão dele.

— Oi, prazer, me chamo Noah.

— Você tem uma arca, Noah? – ele gargalhou, deixando escapar um ronco parecido com um porco.

Eu levantei uma sobrancelha. O garoto era esquisito. Agora havia entendido o porquê das risadas quando ele acenou. Demorei muito para entender a piada dele e fiquei um tanto quanto sem reação.

— Me desculpa – ele abaixou a cabeça em desânimo – foi uma péssima piada.

— Não, não, é que eu não conheço muito sobre a Bíblia. Demorei para entender porque foi inteligente! – sorri, tentando reconfortá-lo. O menino sorriu de volta. Ele poderia ser estranho, mas eu havia simpatizado com o garoto. Ele parecia ser uma boa pessoa e um bom amigo.


O dia na escola foi bem monótono. Não havia nada de especial naquele colégio. As matérias eram igualmente chatas, os professores não ligavam para os alunos. Eles só eram mais rígidos que o normal. Havia boatos que o Sr. Greatby, o diretor, batia nos alunos. Eu não queria comprovar esses boatos, então fiquei na minha junto a Jeremy e Zoey. A garota era a única amiga dele na escola. Com seus cabelos pretos e olhos castanhos, ela era muito bonita e, mesmo estando na nossa série, parecia mais velha. Os meninos diziam que ela era a garota mais bonita da escola.

Mesmo com a companhia dos dois, eu me sentia estranho. Ficava lembrando sobre a noite anterior, estava ainda mais difícil de me concentrar em qualquer coisa. As palavras do estranho repetiam-se constantemente em meus pensamentos. “Ainda não é tempo”. Ao que ele se referia?

Após a aula convidei Jeremy e Zoey para ir à praia comigo. O garoto titubeou, porém a menina insistiu que fôssemos os três e ele, por fim, aceitou o convite. Passamos a tarde juntos na beira do mar, em cima de algumas pedras. Aquele era um dos meus lugares favoritos.  Sempre ia aos sábados com minha mãe e meu tio lá para fazermos piqueniques até o pôr do sol.

Nadamos, rimos, nos divertimos a tarde inteira. Os dois eram pessoas incríveis. Não podia pedir por nada melhor do que a companhia deles em um dia tão pesado como hoje. Por volta das 18 horas, nós nos trocamos e levei-os até a floricultura do meu tio, que já estava fechando. Tio Ben deu uma carona para nós três. Ele me deixou por último.

Entrei em casa e minha mãe estava preparando a comida. Ela me deu um beijo na testa e pediu para eu me sentar à mesa. Inexplicavelmente, ela agia como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Entretanto, meu intuito era outro. Precisava de respostas.

— Mãe. Eu me lembro do que aconteceu ontem ‒ tentei começar uma conversa. Ela me servia o jantar. Lasanha de quatro queijos. Minha favorita.

— Filho, não vamos conver… ‒ porém, eu impedi ela de terminar.

— Você vai ter que me falar! O que aconteceu? Quem era aquele homem?

— Um dia tudo ficará claro. Ainda não é tempo ‒ ela estava calma. Não parecia nada como estivera na noite anterior.

— Foi exatamente o que ele falou ontem! Por que ainda não é tempo? O que está acontecendo? ‒ eu estava desesperado por uma resposta.

— O importante é que eu já estou bem. Como está a lasanha? É sua favorita não é?

Ela havia me ignorado. Minha mãe nunca fazia isso. Ela podia não estar como ontem, mas ela continuava estranha. Toda minha preocupação transformou-se em raiva. Fechei minha cara, fui seco durante o resto do jantar. Engoli a comida quase sem saborear. Queria mais era ir para o meu quarto e dormir.

Foi o que fiz. Terminei meu jantar, agradeci brevemente minha mãe e subi. Bati a porta do meu quarto e pulei na cama. Eu estava exausto e não demorei para pegar no sono.


Os meses se seguiram com a mesma rotina. Jer e Zoey haviam se tornado grandes amigos. Passávamos o tempo todo juntos. Eles me ajudavam com as tarefas de casa e com os estudos. Nós defendíamos Jer dos bullys e do Sr. Greatby. Ele tinha um talento para falar coisas inapropriadas nos piores momentos e vivia indo para a sala do diretor. Todo o dia depois da aula íamos à praia. Eu estava nadando cada vez melhor. Eles nunca ganhavam na competição de prender o ar debaixo d’água. Às vezes, todos estranhavam, incluindo eu, porque eu saía da água sem me molhar. Contudo, nós só ríamos e continuávamos o que estávamos fazendo.

O ano continuou, até esqueci daquela noite bizarra. Minha relação com minha mãe voltou ao normal. Eu e meus amigos estávamos grudados. Passamos o Ano Novo juntos na casa de inverno do pai de Zoey. Parecido comigo, ela nunca havia conhecido sua mãe.

St. Jude tinha se tornado a melhor escola de todas. Não porque o ensino era melhor, tampouco as pessoas que a frequentavam, mas sim pelos meus amigos. O fim do ano escolar chegou. Zoey iria viajar pela maior parte do verão e Jeremy ia para a casa do pai em Vancouver. Os pais deles se separaram quando ele tinha apenas 2 anos. Eu ficaria com a minha mãe, na Flórida. Mas, combinamos que iríamos passar a última semana juntos na fazenda dos meus avós, na Geórgia.

Levei meus amigos para passar um tempo com meus avós e foi maravilhoso. Fomos pescar com o vô Abe. Jer aprendeu a cozinhar com a vovó Beth. No fim das férias, os meus amigos estavam até os chamando de Tio e Tia. Vô Abe parecia mais cansado do que o habitual e ele andava tossindo muito. Comentei com a minha avó, no entanto ela disse que deveria ser apenas uma gripe ou resfriado.

Tudo estava indo perfeitamente bem. Porém, certo dia, meu tio foi me buscar mais cedo no colégio. Fomos ao hospital. Minha mãe estava lá, em observação.

— O que ela tem, tio Ben? – perguntei, preocupado.

— Os médicos não sabem ainda, querido. Ela não se sentiu bem no trabalho e teve que vir pra cá.

Eu tinha certeza de que ele estava amenizando a situação. Conhecia a mãe que tinha. Ela não iria para o hospital se não fosse algo sério. Não podíamos entrar no quarto e isso só piorava minha aflição. Queria ver minha mãe. Queria saber como ela estava.

— Acompanhante da Senhora Brimmearh, por favor. – chamou o enfermeiro na sala de espera.

— Sou eu, sou irmão dela. Esse é o seu filho – o tio Ben levantou-se e seguiu o homem, ele segurava minha mão. Entramos no quarto em que minha mãe estava. Ela estava deitada, dormindo. Havia cateteres em ambos os braços e um tubo saía de sua boca.

— Sentem-se, por favor. – o médico apontou para o sofá vinho apoiado na parede – Sou o Doutor Winston. A senhora Brimmearh está sob os meus cuidados – o médico parecia apreensivo.

— O que ela tem? Ela vai ficar bem? – perguntei. Estava quase desabando em lágrimas. Meus olhos estavam marejados e minha voz trêmula.

— Não sabemos ao certo qual é a condição de Margareth. Ela está sedada no momento é administramos um anti-convulsionante para evitar que ela tenha uma nova crise. Porém, sinto informar, o quadro dela é grave. Ainda precisamos realizar alguns testes, no entanto, ela aparenta ter algum tipo de doença extremamente rara degenerativa do encéfalo. Algo próximo da Doença de Alzheimer e Parkinson. Com certeza é uma síndrome bem agressiva e em pouco tempo se estabelecerá por completo. Ela terá que viver sob os cuidados de algum especialista. Sugerimos também que…

O Dr. Winston continuou falando, porém tudo que eu ouvia era um zumbido em meus ouvidos. Minha mãe. Com Alzheimer. Com Parkinson. Antes dos 40. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Tentei gritar. As palavras do médico ecoavam na minha cabeça. Uma mistura de sentimentos tomou conta de mim. Medo. Tristeza. Dor.

Eu estava apavorado. Eu não conseguia traduzir tudo o que sentia. Estava aflito pela minha mãe. Sentia-me injustiçado. Havia sido roubado. Privado de minha própria mãe.

Ao voltei a mim, o médico já havia partido. Eu estava em prantos. Debruçava-me sobre o leito, a cabeça afundada nos lençóis ao lado de minha mãe. A mão de Benjamin pousava sobre meu ombro. Eu não queria levantar. Não queria sair de perto dela. Não queria voltar para uma realidade onde ela não existia. Ben me segurou, enquanto me deitava em seu colo. Apoiei a cabeça na coxa dele e chorei até dormir.

Na manhã seguinte, abri os olhos e vi minha mãe sentada conversando com um dos médicos. Seus olhos azuis estavam inchados e seu rosto vermelho. Sem dizer nada, a abracei, aninhando meu rosto em seu ombro.

— Noah, querido. Estou bem. Não há com o que se preocupar, – sua voz tremia, nem ao mesmo ela acreditava em suas palavras – vai ficar tudo bem. Eu prometo.

Ela escorreu as mãos pelos meus cabelos. Segurando atrás de minha orelha, ela levantou meu rosto. Seus olhos estavam fixos nos meus. Eu podia sentir a dor que ela tinha dentro de si. Uma lágrima escorreu de seus olhos.

— Meu anjo, você tem que ser forte, ok? Você precisa continuar sua vida. Eu estou bem. Preciso que você prometa ser forte. Eu não podia pedir por um filho melhor que você, querido. Sempre educado, sorridente, gentil. Tenho certeza que você será um grande homem. – Ela passou a mão em minhas bochechas.

Fomos interrompidos pelo meu tio. Ele trazia um arranjo lindo de flores em sua mão. As flores estavam envoltas em galhos e folhas de Freixo.

— Que lindas! Ah, meu Freixo. Como você é doce, Ben.

O irmão mais velho sorriu. Ficamos algum tempo conversando. Minha mãe falava, puxando assunto todo o tempo. Por ora, ela conseguira afastar a tristeza dos nossos corações.

— Visita para Sra. Brimmearh – a voz da enfermeira vinha da porta, oculta pelo corredor.

— Pode deixar entrar. Obrigado.

Um homem com uma feição desconhecida entrou. Minha mãe fez um som de espanto. Ele vestia uma camisa vermelha florida, uma bermuda cáqui de pescador e calçava uma papete. Seus olhos eram de um verde profundo e intenso. O cabelo era curto e escuro, assim como sua curta barba.

— Espera aí! Ei! Você. Você é o homem que esteve em casa! Quem é você?

Eu atropelava minhas próprias palavras. O homem sorria para minha mãe. De repente, senti, novamente, o cheiro de água salgada, dessa vez ainda mais forte que antes. Ele virou o rosto para mim, fixando os olhos nos meus. Eu desviei meu olhar para minha mãe, ela também sorria. Não era como antes que parecia assustada. O aspecto de seu rosto aliviou-se da tensão e ora era sereno.

— Achei que não o veria mais.

— Não pude deixar de vir. Assim que fiquei sabendo, precisei vir. ‒ minha mãe riu.

— Mas você tem tantas outras, pode ter tantas outras, porque ir atrás de uma moribunda?

— Ora, não fale assim, Mag, você sabe que você é especial. Sempre foi. Ainda mais por Noah. Vejo que você anda cuidando do meu Freixo. ‒ ele mirava para o arranjo do tio Ben.

— Ei, eu ainda tô aqui. Sem esses flertes, por favor. Me poupem, vai? ‒ eu exclamei, tentando parar os dois antes que ficasse algo meloso demais ‒ Mas, agora sério, alguém pode me explicar o que está acontecendo? Quem é você, cara?

— Ele é seu pai, Noah.

—Mas oi?? ‒ Eu jurava que tinha ouvido direito. Sacudi a cabeça. Será que os remédios tinham deixado minha mãe desnorteada? Ou pior, a doença dela já estava afetando seu discernimento. ‒ Que loucura toda é essa agora. Se recomponha, mulher.

Minha mãe soltou uma gargalhada, uníssona com a de Benjamin. O homem, que agora olhava pela janela, sorria suavemente.

— Sim, é verdade, Noah. Eu sou seu pai. Infelizmente, não pude te acompanhar pela sua infância. Me chamo Poseidon.

— Posei-quem? ‒ eu estava confuso, porém o nome não soava estranho.

— Acho melhor você se sentar, Noah. Você precisa saber de algumas coisas.

Fiz como ele sugeriu e me sentei no sofá. Poseidon, se esse era seu nome, não havia se movido. Ele concentrava-se em algo no horizonte através do vidro.

— Não posso permanecer aqui por muito tempo. Preciso voltar para o meu reino. Então, serei o mais sucinto que conseguir. Você já ouviu falar em mitologia grega?

Acenei com a cabeça, assentindo. Lembrava-me muito pouco das aulas de história sobre a Grécia Antiga.

— É a galera de Zeus né? Olimpo e tudo mais? ‒ por um segundo, achei que ele ia me atacar. Ele instantaneamente virou seus olhos verdes como a água do oceano para mim. Eles carregavam uma fúria que eu nunca havia testemunhado antes. Não sei o que falei de errado, mas ele não gostou nem um pouco.

— Por que sempre se lembram somente de Zeus? Ele é o mais novo e fica com toda a fama e glória. ‒ o homem resmungou. Pude jurar que ouvi um trovão ao longe. Ele se recompôs e voltou a observar o horizonte ‒ Mas, enfim, não importa, é isso mesmo. Mitologia é o nome dado ao estudo dos mitos. O porém, Noah, é que eles não são mitos. Tudo aquilo que está nos livros, de fato, aconteceu. Eu sou Poseidon, filho de Kronos e Rhea, irmão de Hestia, Hera, Demeter, Hades e Zeus. Somos deuses do chamado Panteão Grego. Acontece que, assim como os mortais, nós temos desejos, emoções, sentimentos e agimos de acordo com nossos próprios ideais. Mesmo que tentemos não nos misturar muito com os assuntos dos humanos, às vezes, mais do que gostaríamos, nos apaixonamos por mortais, tendo filhos com eles. Esse é o meu caso e de sua mãe. Eu me apaixonei por ela há 14 anos atrás, no mesmo lugar que hoje você frequenta com seus amigos. Da nossa relação nasceu você. Um semideus. Você tem parte do meu sangue, compartilha minhas características. Já reparou que você é o único da sua família que tem os olhos verdes? Ou o cabelo castanho? – De fato, eu já havia reparado. Nunca perguntei nada para minha mãe com medo de ser adotado – Notou que algumas coisas em você são diferentes do resto? Você já saiu da água sem ter se molhado? Já sentiu que poderia ficar horas debaixo da água sem se afogar? – balancei a cabeça, mesmo que ainda desconfiado – você provavelmente odeia ler, te dá dor de cabeça, e nunca consegue prestar atenção por muito tempo em algo, correto? Isso é porque você herdou de mim essas características; características de um filho do rei dos oceanos e mares. Você nunca deve ter reparado, já que vive em uma cidade litorânea, entretanto, assim como eu, você sempre está cheirando água salgada.

Era muito difícil acreditar no que ele falava. Em alguns momentos cheguei a ficar com vontade de rir. Mesmo que algumas coisas inexplicáveis começassem a fazer sentido, ainda assim estava duvidoso. Minha mãe estava atenta e balançava a cabeça em concordância. Ben parecia já ter ouvido essa história antes, porque ele não parecia nem sequer tão atônito quanto eu. De repente, o quarto tomou uma luz verde que ofuscava a meia-luz do sol poente. Era muito semelhante àquela que eu havia visto na noite em que ele aparecera na sala do sobrado, porém tinha menor intensidade e era menos duradoura.

— Noah. Noah, olhe! – agora sim meu tio fazia jus à situação. Ele estava boquiaberto e seus olhos azuis estavam esbugalhados. Ele apontava para mim com o dedo tremendo. Olhei para onde ele apontava e entendi. Havia um tridente verde em cima da minha cabeça. A luz provinha da figura.

— Esse é um dos meus símbolos. Eu acabo de te reclamar, filho.

Minha mãe desatou a chorar. Poseidon parou por um instante de fitar o horizonte e pegou sua mão. Ele sorria com uma calma e tranquilidade estranhas à postura que mantivera até agora. Naquele momento, tive certeza essa cena ficaria guardada para sempre em minha memória. Meu pai e minha mãe de mãos dadas à luz do pôr do sol.

— Quero que você saiba também, que não é comum que os pais olimpianos visitem os seus filhos ou amantes com frequência. Eu sou um dos poucos que foge à regra. Eu sou superprotetor demais com todos os meus filhos. Entretanto, não posso fazer mais por você do que eu faço. Saiba, porém, que eu sempre estive te observando. Tenho certeza de que você será grande. – o deus então piscou um olho para mim

— Agora preciso ir. Já estou muito tempo aqui. Tome muito cuidado, meu filho, pois os deuses são cheios de intrigas e eu não me abstenho disso. Há perigos por toda parte. Por isso, você deve ir até o Acampamento Meio-Sangue, lá você estará seguro – Poseidon abriu as mãos; em uma delas apareceu um tridente e na outra uma corrente com um arpão na ponta. Ele me entregou os equipamentos – isso é para te ajudar e você não dizer por aí que eu sou um péssimo pai – novamente ele piscou para mim.

Antes mesmo que eu pudesse dizer alguma coisa, ele já havia saído. O quarto ficou em um silêncio estonteante por longos minutos. Não conseguia processar direito as tudo aquilo que o meu pai me falava. Eu segurava as armas do meu pai em minhas mãos.

— Como você sabe que ele está falando a verdade mãe?

— Eu posso ver através da Névoa, uma barreira mágica que confunde nós, mortais, para não vermos monstros e seres supernaturais perambulando por aí. É um dom um tanto quanto raro. Poseidon me explicou pouco depois de nós nos conhecermos – ela estava séria e conhecendo minha mãe, ela não teria criatividade para criar algo tão bem bolado tão rápido – mas isso não importa, ele está falando a verdade. Noah, você tem que ir até esse acampamento. Por favor, faça o que seus pais estão te pedindo. É  meu último desejo.

Aquele pedido me atingiu como uma flecha, atravessando diretamente o meu peito. Desde que amanheceu não havia pensado que em pouco tempo minha mãe não estaria mais sã. Ela perderia suas memórias, perderia sua personalidade. Ironicamente, se afogaria perdida em um limbo entre existência e inexistência. Não queria abandonar o seu lado, jamais. A última coisa que eu desejava era ficar longe dela.

— Não se preocupe, Noah, eu tomarei conta dela. – não notara que Ben ainda estava no cômodo. Parecia que ele tinha lido os meus pensamentos. A essa altura da minha vida, estava começando acreditar que tudo era possível.

Relutantemente, assenti. Precisava tomar um ar, sair daquele lugar e colocar meus pensamentos no lugar. Deixei o tridente e a corrente no sofá e sem falar nada, me direcionei ao pequeno corredor que dava à porta. O meu tio começou a me chamar – Noah! – mas, ouvi minha mãe sussurrar para ele, pedindo para me deixar ir.

Sai pelas calçadas, perambulando sem saber o que fazer. O sol já havia se posto por completo e um vento gelado vinha do mar. Pensei em ir até South Beach, até em casa, até a floricultura do meu tio. Nenhum desses lugares parecia bom. Vaguei ao léu por uma hora. Voltar para o hospital não era opção. A noite ficava cada vez mais gélida. Estávamos no fim do verão. Mesmo assim, fazia muito mais frio do que o habitual. Naquele momento, já não queria mais estar sozinho. Porém, não havia tomado uma decisão sobre o que fazer.

Quase desistindo de ficar na rua, esperava para atravessar, no intuito de voltar ao hospital quando um ônibus passou na minha frente. Havia uma propaganda colada em sua lateral. Em letras garrafais, estava escrito ”212 VIP . Uma modelo, muito parecida com Zoey, segurava uma embalagem dourada. A ironia era que aquele era o perfume favorito dela.

— Como eu sou otário! Não pensei em minha melhor amiga antes! – falei comigo mesmo enquanto corria para embarcar o ônibus.

Zoey morava em um bairro nobre. A fachada de sua casa era toda detalhada em mármore branco e sua arquitetura era moderna e minimalista. Caminhei pela calçada de cascalho que atravessava o gramado, chegando à porta, apertei a campainha. Logo depois, me recordei que já passavam das dez. Fechei os olhos e virei o rosto, como se estivesse prestes a receber uma pancada.

— Que pavor todo é esse de uma porta? – a voz de Zoey me tranquilizou. Ela estava com a cara um pouco amassada, os cabelos armados com fios soltos para todos os lados e um pijama meio surrado. 

— Besta! Eu fiquei com medo de ter tocado aqui muito tarde.

— Ah, relaxa, hoje é sexta. Eu e meu pai vamos dormir tarde, geralmente. Estranho é você estar aqui. Sumiu do colégio, fiquei preocupada. Mas, por favor, Sr. Brimmearh, entre – Zoey sempre me chamava assim quando queria me zoar. Ela achava meu nome engraçado.

— Muito obrigado, Madame Fairchild – fiz uma reverência e entrei na casa.

Subimos para o quarto dela. Pedi desculpas por interromper e logo desatei a contar tudo que tinha acontecido. Contei sobre a minha mãe, como tudo acontecera, comentei como tinha sido, tudo nos menores detalhes. Era ótimo estar perto de Zoey, ela era uma incrível amiga e uma ótima ouvinte. Fiquei relutante em contar sobre Poseidon a ela. Não sabia o que aconteceria se eu a contasse. A personalidade dos deuses me era desconhecida, não sabia quais eram os direitos e deveres de quem tem filiação divina e aparentemente isso tudo não vinha com um manual ou um “Sendo Um Semideus Para Leigos”. Contudo, não me aguentei. Narrei a mesma história que meu pai me contara e também sobre como foi a reclamação e sobre o que ele me dissera a respeito do Acampamento Meio-Sangue.

A reação de Zoey foi parecida com a minha, em certos aspectos. Ela segurou a risada algumas vezes durante a história e, no fim, ficou parada, com uma sobrancelha levantada. Alguns segundos depois o mais inesperado aconteceu. Uma aura rosa se formou em volta da garota, iluminando todo o quarto. De repente, Zoey estava mais linda do que nunca. Seu pijama havia sido trocado por uma camiseta branca regata, um blazer moldava o corpo da menina. Sua calça surrada foi substituída por uma saia presa ao corpo. Seu cabelo havia sido instantaneamente alisado e repicado. O rosto de Zoey recebera uma maquiagem leve destacando o batom vermelho-sangue em seus lábios. Acima de sua cabeça uma pomba, carregando um ramo, apareceu.

Nunca havia me sentido atraído por ela, mas não podia negar: ela estava estonteante. Zoey foi correndo ao grande espelho que havia em seu quarto. Boquiaberta, ela apalpava seu corpo, numa tentativa de confirmar se aquilo era realidade.

— Acho que não sou só eu que estou tendo um dia bizarro – eu gargalhava vendo a reação dela – alguém talvez tenha que se juntar a mim na busca pelo Acampamento, né não?

— Uou! Você…Você está… Nossa… – O Sr. Fairchild estava tão abismado quanto eu tinha ficado. Mesmo depois de uma guerra de travesseiros, ela continuava divina – Vai… Vai sair querida? ‒ John, o pai de Zoey, disse ao abrir a porta.

— Eu acho que isso foi coisa da minha mãe. O que você acha?

O pai de Zoey ficou ainda mais espantado. Ele entrou no quarto e sentou-se em uma poltrona. Ele então começou a contar o que havia ocorrido. Não, não era a Sra. Fairchild que era mãe de Zoey, ela nunca havia existido. A mãe de Zoey era sobrinha de meu pai, Afrodite. Enquanto o Sr. Fairchild contava a história, reconheci o que meu pai falava. Afrodite nunca havia feito uma visita ao seu amante depois do nascimento de Zoey. Ela provavelmente só havia reclamado a garota por causa da minha reclamação. Eu contei ao pai dela sobre o acampamento e ele concordou com o desejo de minha mãe. Ele sugeriu que fôssemos à Detroit, local onde ele conheceu Afrodite em uma de suas viagens.

Zoey arrumou uma pequena mala jeans com poucos objetos e mudas de roupas. Ela e seu pai se abraçaram. A garota caiu em prantos, mas foi logo reconfortada por nós dois. Zoey me acompanhou, então, até minha casa. Eu coloquei alguns pertences na mochila dela e em breve já estávamos pegando o ônibus de volta ao encontro de minha mãe e meu tio.

Chegamos por volta de uma da manhã no hospital. Minha mãe, claramente, não tinha conseguido dormir. Ela ficara preocupada demais para pegar no sono. Meu tio dormia no sofá.

— Ah, meu filho. Que bom que você chegou! Eu estava aflita de preocupação. Oi, Zoey. Puxa, você está esplêndida! Já pensou em ser modelo? – Zoey corou. Fez um gesto que talvez era para ter sido um aceno.

— Desculpa, mãe. Fui conversar com Zoey e aconteceram algumas coisas… – relatei todo o ocorrido.  No final de tudo, minha mãe havia dormido.

Zoey e eu dormimos como pudemos na sala de visitas em cima de um sofá cama. Acordamos exaustos da noite mal dormida. Depois que nós quatro comemos o café da manhã, foi chegada a hora que precisava me despedir. Meu coração doía só de pensar na ideia. Os olhos de minha mãe tremeluziam levemente. Talvez nunca nos víssemos mais, talvez quando voltasse, se voltasse, ela não se lembraria mais de mim. O choro de minha mãe me fazia reconsiderar a escolha.

A despedida durou horas. Por fim, decidi que não podia ficar mais esperar. Quanto antes fosse para o acampamento, mais cedo voltaria para casa. Mais cedo veria minha mãe e o resto da família novamente. Dei um último abraço em minha mãe e meu tio. Quando vi, eu e Zoey estávamos na rua em direção ao terminal de ônibus que nos levaria até Detroit.

A viagem até Detroit era longa, demoraríamos um pouco mais de um dia, pois o ônibus faria alogumas paradas. O Sr. Fairchild havia nos oferecido uma passagem de avião até lá. Porém, eu não gostava da ideia de estar no território de Zeus, sabendo de todas as implicações. Zoey não tinha gostado nada disso. Passar horas em um ônibus sem tomar banho ou trocar de roupa era um pesadelo pra ela.

— Você nem vai ficar fedendo, tá toda toda aí com essa sua reclamação doida de Afrodite. Bem que Poseidon poderia ter me dado pelo menos um bronzeado né? – eu brinquei enquanto ela colocava sua mala no bagageiro – é só brincadeira, viu pai? – Subimos no ônibus. Zoey trouxera seu livro sobre mitologia para me ensinar um pouco no caminho. Era a primeira vez que eu queria aprender algo teórico na vida.

Ficamos por horas conversando. Acho que a senhora na nossa frente não gostou nem um pouco. A filha de Afrodite me contou sobre os principais mitos. Relatou as histórias dos deuses e como eles lutaram contra os titãs. Sobre os filhos deles, os mais conhecidos, claro, e também narrou histórias e façanhas dos Olimpianos e semideuses. Se meu pai fosse parecido com o que os mitos diziam, o que achava plausível, eu conseguia ver muita semelhança entre nós dois. Pena só que meu sangue escocês não permitia que eu ficasse moreno como ele.

— Quer dizer então que eu sou seu meio-tio? Que loucura, cara! – A todo tempo nós nos divertíamos. Eu não parava de fazer piadas e Zoey ria. No meio do caminho me lembrei de Jeremy. Com todas as novidades e confusão, nós havíamos nos esquecido completamente dele. – Jeremy! Deuses, nos esquecemos dele! – Ele havia ido viajar com a mãe para algum lugar no final de semana.

— Não podemos envolver ele nisso, Noah. Podemos mandar uma mensagem para ele inventando uma história.

Eu tive que concordar. Naquele momento, eu estava me odiando. Ele havia sido meu primeiro amigo de verdade, de que forma eu pudera me esquecer dele? Zoey tocou meu ombro e me acalmou – Ele vai entender, Noah.

Já na metade do caminho, resolvi dormir. Zoey trouxera um remédio para dormir. Ela me garantira que dormiria até chegarmos em Detroit. Pouco depois que tomei a pílula, eu entrei no que parecia um estado de torpor. Acordei somente quando já havíamos chegado à maior cidade de Michigan. Estávamos onde John sugerira. Porém, por onde começaríamos? Não podíamos sair por aí perguntando “ei, com licença, você conhece um acampamento para semideuses?”. Seria pior do que testemunhas de Jeová numa manhã de domingo.

— Talvez devêssemos começar procurando comida ‒ sugeri, minha barriga roncava. Havíamos esgotado o nosso estoque de guloseimas assim que saímos de Miami. Me sentia extremamente juvenil e burro. Zoey fez que sim com sua cabeça. Era impressionante como ela ainda estava deslumbrante. Eu havia acordado com a cara amassada, baba seca no canto da boca e meu cabelo estava um desastre. Ela, por outro lado, continuava exatamente igual ao momento em que fora reclamada.

No próprio terminal, decidimos pegar uma pequena van que tinha como destino um chamado “Devonshire Mall”. Pareceu uma boa ideia na hora, afinal, todo shopping tem uma praça de alimentação, correto? Não nos enganamos. Em menos de meia hora nós saltamos do ônibus na frente do centrinho. Não era um lugar muito grande, haviam apenas algumas lojas. Nos apressamos para uma hamburgueria que havia logo na entrada. Zoey, com toda sua classe, comprou apenas um sanduíche de frango. Eu, em contrapartida, escolhi o maior lanche do cardápio e completei com um refrigerante de um litro. Caminhamos, com certa calma, pela galeria. Como ainda estávamos sem rumo, não necessitava pressa. Zoey logo se interessou por uma joalheria. Devo admitir, era linda. As peças em exposição faziam jus ao preço exorbitante que era cobrado. Mesmo assim, a filha de Afrodite não se intimidou. Ela fitava cada peça do mostruário como quem vê um filme. Praticamente não piscava.

— Olá, jovem ‒ Uma mulher apareceu atrás do balcão. Não, ela não era somente uma mulher. Ela era uma deusa. Não no sentido literal. Mas, ela era maravilhosa. Seu cabelo ruivo escorria sobre seus ombros, caindo ao lado do decote. Os olhos verdes vivos me olhavam com desejo. Não há como negar, eu também a desejava. ‒ Posso ajudá-los? ‒ Ela permaneceu atrás do balcão e Zoey aproximou-se para conferir o display que estava logo a baixo.

— Estou só olhando. Por enquanto ‒ a filha de Afrodite curvava-se para admirar as peças.

— Eu tenho esse lindo colar aqui. Acho que combinará com você! ‒ A moça retirou um mostruário. A joia era realmente linda. Era feita de prata e em seu centro uma linda pedra de um roxo intenso apingentava ‒ Posso? ‒ sugeriu a belíssima vendedora. Ela fez um gesto para Zoey virar-se. A garota obedeceu, retirando o cabelo de sua nuca. Ela olhava ansiosa para mim.

Porém, no momento em que a pedra encostou no tórax dela, seus olhos brilharam, emanando uma luz arroxeada. Em segundos, ele estavam completamente roxos. Me virei para a vendedora. A mulher estava levemente torta para um lado. Seu cabelo estavam em chamas vivas, entretanto o fogo não pareciam incomodá-la. Ela estava com a boca aberta, caninos protuberantes, muito maiores do que o normal, a mostra. Ela inclinava a cabeça de Zoey.

— Você é uma vampira! Solta minha amiga!

— Não, moleque! Eu sou uma Empousa e agora sua amiga será minha. Aliás, ela já é. Dei um presentinho especial…

Antes que ela pudesse terminar, meus instintos de semideus, ou pelo menos, acho que foi isso, tomaram conta de mim. Eu me vi sacando o tridente de minhas costas e rapidamente jogando-o contra a empousa. A arma encaixou-se perfeitamente no pescoço da mulher. Ou o que quer que fosse…aquilo. Duas das pontas do tridente imobilizaram a cabeça dela. Um líquido estranho corria pelos dois lados de seu pescoço. Seu corpo começou a se deformar.

— Se você acha que acabou, não tenha tanta certeza assim. Isso é só o começo – e em segundos meu tridente caiu no chão. A mulher vaporizou-se em mil partículas douradas.

Corri até Zoey e logo me arrependi. Ela voltara a se mover. Ela quebrou o vidro do mostruário atrás de si, sem nem mesmo olhar. Com a mão encharcada de sangue, segurando um caco pontudo, ela partiu para cima de mim. Seus olhos ainda estavam totalmente roxos. Ela estava em uma forma transe, ou algo do gênero. O colar! Era isso. Assim que a empousa pôs a joia no pescoço dela ela ficara assim.

Zoey-zumbi continuou a me atacar. Ela movia o caco com rapidez de um lado ao outro, tentando me atingir. Eu conseguia desviar, mas nunca chegaria perto o suficiente assim. Pulei o balcão, peguei meu tridente e com as costas do cabo atingi a cabeça de Zoey. Ela caíra, desacordada. Com a ponta do tridente, arranquei o colar dela.

Em seguida, para o meu desespero, a filha de Afrodite abriu os olhos. Eles ainda possuíam a luz púrpura emanando deles. Eu não estava acreditando. Precisaria matar a minha melhor amiga? Depois de tudo, não era possível que meu destino era tão cruel assim. A garota levantou-se rapidamente e voltou a me atacar. Era uma questão de vida ou morte. "Fight or flight". Eu tentei investir com o tridente, mas parei, desacreditado. Não tinha coragem.

Zoey não cessou os ataques. Enquanto estava estupefato, mal consegui desviar e o vidro acertou minha bochecha. Porém, ela se aproximara demais. Senti um tremor no tridente e quando olhei suas pontas, ela desaparecerá dentro da barriga de Zoey. A garota cuspiu sangue, espirrando-o no meu rosto. Eu, sem intenção, havia matado minha melhor amiga. Ela caiu de joelhos. Seus olhos voltaram ao castanho com o qual eu estava acostumado. Incrédulo, removi o tridente de seu estômago e removi minha camiseta. Amarrei em volta de seu torso, numa tentativa de estancar o sangramento. Assim que terminei, Zoey desmaiou. Ouvi um barulho de cacos quebrando atrás de mim. Quando virei para ver o que era, o pó dourado no qual a empousa havia se transformado estava se reagrupando. Atônito, tentei acordar, mas fracassei. Tentei sentir seu pulso, porém sem sucesso. Lágrimas escorriam pelo meu rosto quando me levantei. Não podia esperar pelo ressurgimento do monstro. Condoendo-me com o que havia de fazer, saí correndo pela galeria. Sem hesitar por um segundo, disparei sem rumo. Só precisava ficar longe de tudo aquilo. Mais uma vez, me despedia de alguém que eu amava.
Minha mãe. Meu avô. Minha melhor amiga.

Quando já ficava sem fôlego, parei à beira de um rio. Deitei-me na grama, em baixo de uma árvore. Havia percorrido uma distância grande o suficiente para estar longe do perigo. Em meio a lágrimas, eu caí no sono.

Não sei por quanto tempo dormi. Provavelmente por muito. Eu estava exausto. Acordei com algo quente e molhado passando pelo meu rosto. Abri os olhos. O sol estava a pino. É eu tinha dormido muito, com certeza. Quando percebi, uma língua passava pelo meu rosto. Um cavalo marrom olhava para minha cara.

— Bom dia, princesa! ‒ ouvi uma voz. Não consegui dizer de quem era, no entanto, no susto, levantei, levando minha mão ao meu tridente ‒ Uou, calma aí. Não precisa disso tudo. ‒ Eu girei, perdido, não sabia de onde vinha a voz.

— Estou ficando louco? ‒ murmurei para mim mesmo.

O cavalo estava parado na minha frente. Ele tinha o corpo marrom com as patas pretas. O encarei. Não havia mais ninguém além do cavalo. Tinha certeza.

— Não, não está ficando louco ‒ a voz vinha do cavalo.

— Um… um cavalo que fala?

— Não sou um cavalo ‒ de repente asas magníficas, de dois metros cada, da lateral do animal. A plumagem da mesma cor marrom dos pelos ‒ Sou um pégaso. Filho do Pégaso. Vim para levá-lo ao Acampamento Meio-Sangue, garoto. Acredito que os deuses estavam ouvindo suas preces. Eu te explico tudo no caminho.

— Eu… ‒ Parei. Não havia palavras. Eu não sabia o que pensar. Mal acordara, entretanto me sentia letárgico. Não conseguia conceber como eu estava falando com aquele cavalo-alado. Sem relutar muito, subi nas costas do animal. Se isso era uma benção divina, não poderia negá-la. Ele levantou voo e em pouco estávamos atravessando as nuvens. “Finalmente”, pensei. Era a primeira sensação boa que tinha em tanto tempo. Naquele momento, só uma palavra podia descrever aquilo: serendipidade.
o resgate de akakios

Acordei assim que amanhecera no Chalé 3. A cabine no acampamento que era destinada àqueles filhos de Poseidon. Ou, também conhecidos por mim como meus meios-irmãos. Me levantei e fui me arrumar para o que seria mais um dia comum no acampamento. Ou então, eu achava que seria. Tomei um banho rápido, coloquei uma bermuda de sarja e uma das minhas camisas de verão.

Saí do Chalé e caminhei em direção à praia. Fiquei sentado lá um bom tempo. Olhava as ondas indo e vindo pela areia. A proximidade com o mar sempre me acalmara e, naquele momento, não era diferente. Mesmo estando frio, resolvi nadar. Eu mergulhei por vários minutos sem ir à superfície uma vez sequer. Era uma delícia ficar debaixo da água, sentindo a correnteza, abrir os olhos e ver aquela imensidão turquesa. Quando já estava longe da praia, fiquei de costas, boiando. De repente, um golfinho apareceu ao meu lado.

— Olá Noah!

— Eu posso falar com golfinhos também? – perguntei.

— É claro. Sendo filho do rei dos mares, você tem a capacidade de comunicar-se com qualquer animal marinho. Embora, esse não é o motivo pelo qual estou aqui. Um dos seus irmãos paternos está correndo perigo. Akakios, um dos ciclopes mais jovens de Atlantis, estava atrás de um artefato a pedido de seu pai, quando todo contato com ele foi perdido. Poseidon não está nem um pouco feliz. Ele acredita que pode ser trama de algum deus, já que esse ciclope é um de seus filhos mais queridos. Perguntei a Dorothy, o golfinho, se havia alguma pista de onde Akakios estaria. Porém, tudo que se sabia é que ele teria ido ao Norte e provavelmente estaria em terras canadenses.

— Toronto é um bom lugar para começar. Preciso ir, Noah. Tome cuidado! E, por favor, traga ele de volta! Foi um prazer te conhecer – em seguida, o animal mergulhou e sumiu.

— OK, Toronto, aqui vamos nós. Eu acho.

Nadei até a praia e retornei a minha cabine para busca meus equipamentos. Prendi meu tridente às minhas costas e enrolei a corrente em meu torso. Juntei mais algumas coisas que achava que talvez precisasse e fui para a Casa Grande para avisar Quíron. Se eu morresse, queria que pelo menos alguém soubesse o motivo. O centauro pareceu a melhor opção. Repeti ao chefe de atividades do acampamento o que o golfinho me contara. Ele pareceu um pouco preocupado, porém concordou que eu não poderia negar a tarefa e sugeriu que deveria ir sozinho. Ao terminar a conversa com o centauro, saí do local, me preparando psicologicamente para a viagem. Para minha surpresa, Rapadura pastava na grama logo em frente à casa.

— Ah, você está aí. Estive te procurando.

— Não parecia que você estava não. Parecia que estava ocupado.

— Er… Eu só… Eu estava… Bem, não importa. Vim te dar uma carona até Toronto, então não venha cheio de graça. Vou te economizar um bom tempo de vida, garoto.

Agradeci aos deuses que não precisaria ir de ônibus até lá. Não só pela economia de tempo, mas também porque voar em Rapadura era sensacional. Ele tirava um pouco do peso em meus ombros. ”A que ponto chegamos? Sou amigo de um cavalo. Isso é loucura demais”, pensei, enquanto montava no seu dorso.

O caminho até Toronto não era longo. Em menos de duas horas estávamos chegando na maior cidade do Canadá. Rapadura pousou em um grande parque. Me perguntei o que os humanos haviam visto através da Névoa. Desmontei do pégaso e dei a ele uma cenoura com papel, era sua comida favorita. Tinha que ter o papel, se não o legume perdia a graça.

Assim que desmontei, ele se despediu e saiu voando de novo. Eu estava sozinho de novo e não tinha ideia de por onde começar a procurar. Andei por horas sem encontrar nenhuma pista. A noite começou a cair e o sol se pôr. Estava muito mais frio lá do que em Nova York. Era estranho, não era para estar tão gelado nessa época do ano. As luzes das ruas começaram a se acender. Aos poucos, as janelas dos prédios e casas pipocavam, iluminando-se. O letreiro luminoso da loja a minha frente se acendeu. “Coats Revenire”. Era a única da rua que estava aberta. O lugar era deserto e tudo que se podia ouvir era o uivo do forte vento que soprava do norte. Flocos de neve caíam dos céus. Resolvi entrar na loja para me proteger da nevasca que se instaurava.

A loja era apertada e cheirava a mofo. Um senhorzinho troncudo e corcunda sentava no fundo do estabelecimento que mais parecia um corredor. Os minúsculos olhos detrás de óculos enormes estavam fixos em uma televisão, tão pequena quanto os olhos do senhor. Assim que entrei um sino tocou, porém o velho pareceu ignorá-lo.

— Olá, gostaria de comprar um casaco. Não precisa na extravagante, nem muito chique, só algo que…

— Não vendemos casacos ‒ ele exclamou, sem mover um fio de cabelo, ainda fixo na televisão muda.

— Mas… O que são esse monte de roupa então? Por favor, senhor, estou com sozinho e com muito frio.

— Não estamos aber… Você disse sozinho? – ele se levantou, apoiando-se em uma bengala.

— Sim senhor. Não conheço a cidade. Estou procurando um amigo.

— Hmm… entendo – o velho sorriu. Seus dentes eram amarelos e afiados – não posso te ajudar, mas tenho certeza que você pode ser útil – ele lambeu os beiços. Aquele sorriso e aquele gesto não me pareceram nada bom.

— Acho que eu estou bem. Já vou indo. Nem tá tão frio assim. Consigo viver sem um casaquinho.

Comecei a andar de costas. Naquele momento reparei que não havia um casaco de algodão. Eram todos de peles dos mais variados animais e nos mais diferentes tamanhos. Havia um que parecia pele de… de humano. Com um grito, me virei e saí correndo para a porta. Porém, ela estava trancada.

Voltei a me virar e o velhinho estava há menos de 10 passos de mim. A boca dele estava aberta e salivava. Os dentes estavam ainda mais afiados. A pele dele engrossara, parecendo levemente com a de um réptil. Sua bengala havia se transformado em uma clava.

— Acho que você não vai a lugar algum, garoto. Você vai ficar aqui, na minha linda coleção, para sempre.

O senhor, que agora estava um pouco mais alto, levantou a maça e a balançou em minha direção. Eu desviei por muito pouco. Agora era minha vez, saquei o tridente, tentando espetá-lo. O velho era mais ágil do que parecera. Sem grandes dificuldades ele esquivou e contra-atacou, no mesmo gesto de antes. Não tive outra escolha a não ser colocar o cabo do tridente entre sua arma e eu. Em um só movimento, girei o tridente, empurrando a clava dele para o chão. Enfinquei as pontas de minha arma no bastão, para que ele não pudesse pegá-la. Desenrolei a corrente de meu corpo. O ogro não ficou parado. Ele pulou para cima de mim, tentando me morder. Bem a tempo, consegui defender com o arpão que havia na extremidade da corrente. Ele estava em cima de mim e mordia o arpão incansavelmente. Coloquei as duas pernas em seu peito, aplicando toda a força que tinha eu o empurrei para longe. Rapidamente, me levantei, agarrei meu tridente e arremessei na direção dele. O velho rolou para o lado, porém não foi rápido o suficiente e seu braço foi atingido pela minha arma, ficando preso ao chão. Em um último golpe, me aproximei do monstro e cravei a ponta de meu arpão em seu coração. Ele berrou e em segundos seu corpo tinha dado lugar a um estranho líquido dourado.

Recolhi minhas armas e corri para fora da loja. A neve estava caindo em maior quantidade agora e começava a se acumular no chão. O vento piorara e ficara ainda mais gelado. Eu tremia. Subitamente, o vento começou a se concentrar na minha frente, dele surgiu uma jovem, devia ter a minha idade, se não menos. Ela era muito bonita, tirando o fato de que ela era meio transparente. Eu saquei meu tridente novamente.

— Não precisa disso garoto. Estou do seu lado. Sou uma ninfa do vento. Vim avisar-lhe que o ciclope, Akakios, não está aqui, mas sim em Montreal. Eu não posso falar-lhe mais do que isso. Não deveria nem estar aqui. Você precisa ir rápido.

Tão rapidamente quanto chegara, a ninfa havia sumido, misturando-se com o vento. Coloquei meu tridente de volta nas minhas costas e fui andando, a procura de abrigo. Achei um pequeno hotel. Ele estava vazio exceto pela mulher na recepção. Eu não tinha muito dinheiro comigo, mas era o suficiente para a hospedagem. Graças aos deuses, meu quarto tinha uma boa calefação e uma pequena lareira à gás. Tomei um banho quente e me deitei.

Dormira por apenas quatro horas. Acordei antes mesmo de o sol nascer. A noite quente no quarto me renovara. Perguntei à moça da recepção como poderia chegar em Montreal de lá. Ela me apontou para uma empresa de translado não muito longe do hotel. Agradeci a informação e a estadia, paguei pelo quarto e me encaminhei para o local que ela havia apontado.

Quando peguei o ônibus, ainda não havia amanhecido. Resolvi aproveitar para descansar um pouco mais. Acordei, quase 5 horas depois, com o motorista me avisando que havíamos chegado. Fui caminhando em direção ao centro da cidade quando vi algo voando a cima de mim. Sem que eu pudesse ter alguma reação, a criatura desceu e me agarrou pelos ombros, levantando voo. No horizonte, vi um enorme castelo flutuando. O vento congelante provinha de lá. Ao olhar para cima, uma mulher alada me carregava. Era uma harpia, pelo lembrava

A mulher me soltou no terraço do enorme palácio. O castelo era todo branco, parecia feito somente de gelo. A entrada da mansão era estonteante. Havia uma enorme porta, de provavelmente 10m, e janelas igualmente grandes ao seu lado. Sem que eu me movesse, a porta rangeu e começou a se abrir, fazendo um som grave estremecer toda a propriedade. No centro da sala, havia uma espécie de trono e nele sentava-se um homem. Ele vestia um terno branco que parecia ser feito de neve. Seus cabelos e barbas eram compridos e estavam cobertos por pequenas partículas de gelo.

— Se aproxime, filho de Poseidon. Você está em minhas terras. As terras de Boreas, vento do Norte. Senti seu cheiro de longe. ‒ Fiz como ele ordenou e cheguei mais perto. Ao seu lado, uma linda mulher, pálida como a neve, com longos cabelos negros estava ao seu lado.

— Vamos transformá-lo em uma estátua de gelo, pai, por favor! – eu instantaneamente fiquei aflito – vamos logo! – ela parecia ansiosa, como se minha presença a perturbasse.

— Calma Quione. Preciso saber o porquê de ele ter vindo tão ao norte – o homem estava sério – diga-me, filho de Poseidon, qual é o seu nome e o que faz aqui?

— Eu me chamo Noah. Noah Brimmearh. Estou à procura de um meio-irmão que desapareceu aqui ao norte.

— Falei, ele não é importante, por favor, me deixe congelá-lo! – ela suplicava ao pai, ainda mais transtornada.

— Silêncio! – a voz dele ecoou, tremendo o castelo inteiro. A mulher encolheu-se diante o grito do pai – Que irmão é esse que você procura? Por que acha que ele estaria em minhas terras? – o local ficara em total silêncio após o berro de Boreas

— Eu… Eu segui o rastro dele até Vermont. A trilha foi ficando fraca, mas indicava que ele poderia estar aqui. – eu menti – Ele é um ciclope, se chama Akakios.

No momento em que falei um som abafado veio do fundo do corredor. Parecia uma voz, porém era fraco demais para eu decifrar o que seria. Ao mesmo tempo em que ouvi, Quione gritou, parecendo tentar anular o som. Boreas também percebera.

— Garota, você não tem nada a ver com essa história, correto? Conheço seu histórico com o rei dos mares.

— Eu não… Não fiz nada de errado… ‒ No entanto, a garota não transpareceu confiança. Novamente, ouvi um som vindo do final do corredor. Era o mesmo som. Parecia algo desesperado. Dessa vez, Quione não o abafou.

— Zetes! Calais! ‒ Eu nem havia reparado nos dois que estavam na sala ‒ Vão verificar o que é isso ‒ Boreas também havia escutado.

Os garotos obedeceram e foram até o corredor. Em alguns instantes, eles voltavam com um garoto acorrentado. O menino tinha apenas um olho, bem no centro de seu rosto. Ele era imenso, devia ter uns dois metros e meio de altura. Os cabelos eram escuros e em forma de tigela. Ele usava calças jeans largas e uma camiseta regata. Sua boca estava amordaçada.

— Quero ouvir o que o ciclope tem a dizer ‒ Boreas ordenou que retirassem a mordaça.

— Não me matem, por favor! ‒ o ciclope começou a soluçar de tanto que chorava

— Ninguém vai te machucar, Akakios, prometo. Sou seu meio-irmão. ‒ eu disse tentando acalmá-lo. Porém, sem firmeza alguma em minha fala.

— Isso depende, semideus… Vai depender de quais eram as intenções dele aqui…

— Eu não queria vir para cá. Aqui é frio. aquela moça me raptou. Eu só estava procurando um item pro papai – ele apontou para Quione e voltou a chorar.

— Isso não é verdade… Ele disse que queria me…

Contudo, Boreas não a deixou terminar. Um vendaval gelado instaurou-se dentro do castelo. Boreas estava furioso e a ventania refletia isso. Eu tremia de frio e o vento cortava minhas bochechas.

— Você sabe o que você fez? Você quer causar uma guerra entre os deuses? É tudo que precisam para começarem a guerrear. Isso tudo por causa de um antigo caso entre você e Poseidon? Você tem noção do que fez?

Os dois começaram a gritar, eles brigavam entre si e se xingavam. Eu nunca pensei que ia ficar tão feliz em ver um pégaso na vida. Rapadura aterrissou na varanda por onde eu havia entrado. Eu e Akakios percebemos e disparamos em direção ao pégaso. Logo depois, outro pégaso, muito maior que Rapadura pousou ao nosso lado. Ele era quase o dobro do tamanho do pégaso e tinha uma coloração cinza com manchas brancas. Ele se apresentou enquanto eu montava Rapadura. Relutantemente, o ciclope montou em cima de Horton, o pégaso cinzento.

Boreas e sua filha, Quione, ainda estavam discutindo quando levantamos voo. Rapadura me contou que ouvira de uma ninfa das nuvens os boatos sobre minha ida até o castelo do deus dos ventos nortenhos e veio me salvar.

Levei Akakios até o Acampamento Meio-Sangue. Não tinha muita ideia de onde levá-lo e ele ainda estava apavorado. Após reportar a Quíron, o levei para conhecer a praia. Ele não se sentia bem perto do resto dos acampantes, queria voltar pra casa, para as forjas de Atlantis. Contudo, eu não tinha noção de como faria isso.

Sentamos na orla e tentei conversar com ele. Apesar do tamanho, ele era uma criança. Apavorado, tudo que ele conseguia fazer era chorar. Eu estava ficando mal pelo ciclope. Não sabia como ajudá-lo. Minutos depois, Dorothy apareceu há uns 20 metros da orla. Ao lado dela, havia dois cavalos.

— Cavalos podem nadar? – Akakios me perguntou. Mas, eu não tinha uma resposta. Fomos nadando até Dorothy. Ela contou que Poseidon estava contente com o meu resultado e que queria que levasse Akakios de volta. Esses são os hipocampi, Hizli e Hizla. Eles vão levá-los à Atlantis. Eu tenho outras mensagens para entregar, então não os acompanharei. Mas, a gente se vê, Noah – ela virou-se em direção ao alto mar e sumiu na imensidão azul.

Rapidamente chegamos à Atlantis. O lugar era lindo. Um domo enorme e espesso cobria toda a extensão do lugar. No centro, havia um castelo imponente que me lembrava muito um upgrade do chalé destinado ao meu pai no acampamento. Era todo enfeitado por conchas e pérolas. Quando chegamos perto da cúpula, Hizla me disse que ali dentro não havia água e por isso, eles não podiam entrar. Agradeci aos dois hipocampi e nadei junto com o ciclope para dentro da redoma. Achei que fôssemos cair na ausência de água, mas flutuamos até o chão numa velocidade segura, como se ainda estivéssemos de baixo da água. Akakios me abraçou, algumas lágrimas rolaram pelos seus olhos. Assim que terminamos, ele se despediu e correu para as forjas. Uma oceânide me acompanhou até uma grande sala dentro do palácio, onde eu esperei pelo meu pai.

— Me desculpa a demora, Noah – ele vestia uma bermuda de pescador e uma camiseta havaiana – como já te disse, não posso te deixar aqui muito tempo. Queria que você conhecesse o meu reino um pouco melhor, porém Zeus me permitiu trazê-lo aqui por um pouco.

— O que aconteceu? Por que Quione raptou Akakios? Só ouvi Boreas falando que você tinha um histórico com ela – eu estava meio confuso, não sabia por que alguém raptaria o filho de um deus.

— Quione e eu temos, de fato, um histórico. Eu e ela já tivemos, bem, um caso e tivemos um filho. Ela rejeitou o nosso filho e desde então nós vivemos tendo desavenças. Não esperava, no entanto, que ela fosse capaz de ir tão longe. Zeus, no entanto, atendendo a súplica de Boreas, me pediu para que não houvesse retaliação. Eu concordei, sob o acordo que Quione fosse penalizada.

— Bom, já te mantive aqui por muito tempo. Tempo demais. Você deve voltar para o acampamento. Mantenho o que disse: tenho certeza de que você será grande – ele piscou para mim e subiu as escadas. A oceânide aparecera de novo para me levar de volta. Levemente, ascendi para a superfície do domo, como se estivesse subindo para sair de uma piscina.

Hizla me esperava. Montei em cima dela e partimos de volta para a superfície, para a praia do acampamento. Um sorriso estava estampado no meu rosto, indo de orelha a orelha.
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Re: TESTE PARA FILHOS DE POSEIDON — JANEIRO

Mensagem por Zeus em Seg 01 Fev 2016, 12:39


Avaliação
Vamos ver como você foi...


Noah Brimmearh: Reclamado.

Achei espontânea a sua narrativa e cativante a descrição das características físicas e psicológicas da personagem. No decorrer da história achei que os períodos de seu texto estavam curtos, mas você conseguiu criar um ritmo no texto onde ficou impossível parar! Muito bem bolado.

Não vi nenhum erro grave que deva ser assinalado, mas os seguintes trechos ficaram confusos.
 Ele deixou minha mãe pouco antes depois de eu nascer.
-> Aqui ficou um pouco confuso, mas relevei.
Ao voltei a mim, o médico já havia partido.

Outro trecho você foi repetitivo:
Em pouco tempo me vi com sono e peguei no sono.

Mas, mesmo com esses erros bobos, que poderiam ter sido evitados com uma revisão, você conseguiu me prender e me fazer rir enquanto eu avaliava o seu teste. A piadinha com Noah e a arca foi demais! F*ck that shit

A morte de Zoey me surpreendeu, o fato dela ser uma semideusa e ter sido reclamada na frente do filho de Poseidon também. Você me emocionou quando Noah encontrou a mãe no hospital, foi uma cena muito bonita e triste de se imaginar.

Narrou bem os pré-requisitos e a visita ao reino de seu pai também. Gostei o motivo que o fez chegar até lá e a trama que criou, algo bem trabalhado e com motivos fortes!

Os meus parabéns e caso tenha alguma dúvida ou reclamação envie-me uma MP.


Atualizado
Por: x_X_X_X_X_x


Corrija um sábio e o fará mais sábio.
Corrija um ignorante e o fará teu inimigo.
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