Deus ama, o homem mata

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Deus ama, o homem mata

Mensagem por Heron Devereaux em Qua 10 Out 2018, 21:19

Deus ama,
o homem mata
Heron Devereaux
avatar
Filhos de Atena
Mensagens :
887

Localização :
Desaparecido

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Deus ama, o homem mata

Mensagem por Heron Devereaux em Qua 10 Out 2018, 21:41

Genesis
“And God said, ‘Let there be light,’ and there was light.”

B
rilhava a lua cheia e a luz fraca de alguns postes sobre o pavimento na Terceira Avenida. Anna enxergava pouco – quase nada – mesmo assim. As lágrimas enchiam-lhe os olhos, corriam pelas bochechas e caíam pesadas sobre o concreto da calçada. Suas mãos suavam e os pés tropeçavam um no outro.

Deixou a calçada, por que ali era um alvo fácil, e se aproximou do parquinho infantil. Ela saltou a pequena cerca de ferro com um tanto de dificuldade. Tinha só 9 anos, afinal. A sola dos sapatos tocou as pedrinhas que cobriam o chão do parquinho. No silêncio da madrugada, o barulho das pedras roçando umas nas outras se tornava desnecessariamente maior. Mas aí, já era tarde demais. Não adiantava dar meia volta. Ela começou a atravessar o parquinho. Os pés quase não conseguiam mantê-la em pé.

Um barulho alto, um gemido, uma dor lancinante atrás do joelho esquerdo. Ela desabou sobre as pedrinhas do parque. O lábio se partiu em dois e o sangue escorreu pelo queixo, em direção ao pescoço. Ela girou sobre o chão e seus olhos encontraram o trio que a perseguia atravessando a cerca de ferro. Homens de corpos esguios, com o triplo da idade da pequena. Silêncio. Mas os olhares em sua direção diziam muito. O do meio apontou a arma em direção à menina uma vez mais. O dedo sobre o gatilho.

Ela não queria morrer.

Mas não tinha direito de viver.

×××

Já era quase pôr-do-sol. Os raios de luz ziguezagueavam entre os prédios de Manhattan, tingindo de vermelho, laranja e lilás o fim de tarde em Nova York. O Audi A8 preto fez a curva, entrou na Madison Avenue e seguiu em direção a Midtown. No banco da frente, havia um homem de cabelos longos amarrados em um coque que se escondiam embaixo de um chapéu de chofer e que, por si só, já daria uma boa história. Mas é o homem no banco de trás que nos interessa nesse momento. O cavalheiro de cabelos dourados bem penteados, terno cinza bem alinhado e perfume forte, que mantem o olhar perdido em direção à bagunça lá fora. Heron Devereaux. Um alpinista social. Num intervalo de poucos anos, Heron escalou os prédios comerciais mais perigosos de Manhattan, onde qualquer peixe maior era um predador em potencial. Mas Heron não se intimidou com o cardume. Agora, sentava no topo de um deles, como diretor executivo da Genesis Corp. Ninguém sabe bem como aconteceu. Ninguém sabe explicar direito como o fodido do Devereaux subiu tão rápido uma escalada que talvez nem as próximas gerações dele devessem ser capazes de alcançar. Ainda que as circunstâncias fossem extraordinárias, ninguém negava a capacidade do homem para dirigir os negócios. Heron era como um ímã, e seu campo magnético era quase impossível de se resistir.

Ele se mexeu sobre o banco de couro preto, desconfortável. O cheiro de carro novo na ponta do nariz. O olhar inexpressivo do homem que dirigia o automóvel no espelho retrovisor. Uma orquestra de sirenes tocava sua sinfonia alguns quarteirões longe dali e o som chamou a atenção do filho de Athena. Os dedos batucaram sobre o encosto de braço, na porta do carro. “Nem toda sirene é pra você, Devereaux.”

— Algo errado, senhor Devereaux?

— Heron, Chase. Meu nome é Heron — o homem reclamou, enquanto lançava um olhar de reprovação através do espelho retrovisor. A reação do motorista denunciava que já haviam tido aquela conversa uma centena de vezes. O homem atrás do volante balançou a cabeça devagar e voltou a atenção para o asfalto. — Tudo certo. Não se preocupe. Só quero ir pra casa.

— Sim, sen... — Uma sobrancelha arqueada no rosto de Heron. Os olhos inexpressivos de Chase no retrovisor. Um segundo de hesitação. — Heron.

Seguiram em silêncio, pela Madison Avenue. Chase, focado no trajeto. Heron, perdido numa nuvem de pensamentos que ele não queria ter. Já haviam se passado 7 anos desde que deixou o acampamento Meio-Sangue. Falo com sinceridade quando digo que ele nem pensava mais naquilo. O tempo o distanciou dos deuses, do Olimpo – mesmo que o Empire State Biulding continuasse há 30 minutos de viagem dali – e do acampamento. Uma vez, foi Heron Devereaux, um menino semideus, desajeitado, um desajustado social. Era, desde então, Heron Devereaux, homem distinto, promessa de um futuro brilhante para os negócios em Manhattan e fora dela.

Mas de vez em quando, sentia saudades das coisas que deixou pra trás. Seus pensamentos pairavam em volta de uma menina de cabelos negros e olhos felinos. Pensava nela de vez em quando. Pensava em como as coisas poderiam ter sido diferentes. E aí, dava descarga em todas as lembranças. Estava feliz com o que havia conquistado. Não abriria mão disso por ninguém. Nem mesmo por ela. Nem mesmo por Elsie.

— Heron, senhor... — a voz do rapaz no banco da frente puxou Heron de volta à realidade. O Audi preto interrompeu seu trajeto em frente a um enorme prédio residencial. O concreto cinza subia em direção ao céu, até se perder de vista.

— Obrigado, Chase. Por hoje é só. Boa noite, rapaz. E juízo.

Ele saltou para fora do carro. O ar cheirava a fumaça de cigarro, cachorro-quente e gasolina. Nunca foi um homem do campo. A vida na cidade era para ele. Gostava do caos. Gostava da estranha mistura de cheiros. Manhattan era sua casa, de uma forma que o acampamento ou os outros lugares onde ele esteve nunca conseguiram ser.

Ele atravessou a calçada, acenou com a cabeça para o recepcionista e atravessou um saguão bem iluminado do enorme prédio. Silêncio. Precisava de um pouco de silêncio, depois de um dia agitado no escritório. Atravessou o saguão com uma dezena de passos, entrou no elevador particular. Ele apertou o botão para o único andar disponível, enquanto as portas se fechavam, abafando os barulhos da cidade e o jazz instrumental que tocava no elevador embalou o tal silêncio que Heron andava a procura.

A gravidade se torna mais perceptível do que o comum quando o elevador começa a avançar em direção ao céu. A cabeça de um filho de Athena – a cabeça de Heron – era como a maré. Às vezes o nível da água decresce e as coisas parecem mais calmas. Os pensamentos se alinham em sua mente e tudo parece fazer mais sentido do que faz para o restante das pessoas. Às vezes o nível da água se eleva e os pensamentos inundam sua mente. O brainstorm às vezes é bem-vindo. Mas a verdade é que quando a maré sobe o mar se torna capaz que erodir a beira-mar e, da mesma forma, acontece com Heron. Depois de um longo dia tentando gerenciar as consequências de uma maré alta de pensamentos, tudo o que ele precisava era esvaziar uma garrafa de uísque caro pra lavar a mente das ideias, das lembranças e de tudo mais que o corroía.

A noite caiu e as portas se abriram na cobertura de três andares que fica empoleirada no topo do One Madison. A escuridão da sala de estar era quebrada apenas pelas luzes da cidade, que atravessavam as janelas panorâmicas e deixavam o lugar numa penumbra sinistra. O bastante para os olhos de coruja do filho de Athena conseguirem guiá-lo pela escuridão. Silêncio. Ele deixou o elevador e caminhou pela sala, até encontrar uma mesa de canto onde uma bandeja de bebidas repousava. Pegou qualquer uma das garrafas de uísque, porque era impossível errar na escolha. Derramou um pouco da bebida em um copo vazio e colocou a garrafa de volta em seu local de origem. Heron apanhou o copo e bebericou um pouco da bebida. Os pelos em sua nuca se eriçavam. Silêncio. Mas tudo ao seu redor parecia gritar. As coisas pareciam mais fora de ordem do que o normal. Ele descobriu o porquê quando virou o rosto em direção ao restante da sala.

O sofá caro e não tão confortável repousava sobre o tapete que cobria a sala de estar. Na mesa de centro redonda, um copo de uísque que Heron não lembrava de ter bebido. Numa das poltronas opostas às grandes janelas, uma silhueta se desenhava. Um homem escondido nas sombras da cobertura do One Madison. O senhor Devereaux sentiu o sangue escapar de suas extremidades. Sentiu a descarga de adrenalina correr pelo seu corpo numa fração de segundo. O instinto de luta-ou-fuga gritava e ele decidiu lutar. Arremessou o copo de uísque em direção ao homem. Mas a figura desconhecida, mesmo sentada, não teve muita dificuldade em esquivar-se do golpe. O copo espatifou-se perto das janelas e cobriu o chão de madeira com uísque.

Arqueou os joelhos. Impulsionou o corpo. Seu pé direito tomou impulso no braço do sofá e, no instante seguinte, ele saltava sobre a mesa de centro. Pousou sobre a figura escondida nas sombras. O peso dos dois derrubou a poltrona sobre o chão e os dois deslizaram alguns centímetros pelo chão. A luz da lua cintilou sobre os olhos do desconhecido. Heron não deu muita atenção a isso. Seu corpo mantinha o oponente contra o chão, enquanto seus punhos martelavam as maçãs do rosto. 1, 2, 3 golpes.

A voz do desconhecido escapava por entre seus dentes. Nos ouvidos do filho de Athena, soava quase como uma gargalhada. Ele levantou os punhos e retribuiu os golpes que Heron desferiu contra ele. 1, 2, 3 golpes. Sem precisar pensar muito, Heron soube que a dor que sentiu foi desproporcional à que causou ao outro. Sentiu o gosto de sangue na boca quando colocou as mãos em volta da cabeça do outro e começou a martelar o piso de madeira com a nuca do homem desconhecido. Por alguns segundos, não houve nenhuma reação. O filho de Athena até chegou a pensar que havia dominado o oponente. Seu pior defeito era que confiava demais em sua própria capacidade.

O homem reagiu. Colocou as mãos sobre o tórax do semideus. Não fez muita força, mas conseguiu repelir Heron. Seu corpo atravessou o espaço da sala de estar e colidiu contra a mesa e as cadeiras da sala de jantar.

Deve ter quebrado algum móvel ou algum pedaço do corpo, porque conseguiu ouvir o som de algo se partindo ao meio. Mas a adrenalina ainda corria por seu corpo. Ele se colocou de pé. Orgulho ferido. Algumas partes do corpo também. Mas seus pés o guiaram em direção ao homem nas sombras. As mãos apertaram a gola da camisa dele. Os olhos do desconhecido cintilaram à luz da lua outra vez.

— Vamos com calma agora. Não pode me ferir. Não desse jeito, pelo menos. Além do mais, parece uma atitude um pouco exagerada, dada a circunstância. — O homem empurrou Heron em direção às janelas, colocando-o contra a parede. As luzes da cidade o banharam. Vestia terno azul-escuro. Os cabelos bem alinhados. Um bigode acima dos lábios, um nariz extravagantemente grande e alguns traços latinos em seu rosto. Ele afastou-se e colocou os olhos sobre a cidade lá em baixo.

— Dada a circunstância? — Todos os sentidos ainda gritavam diante da situação de perigo. Mas o outro homem não parecia disposto a um combate. — O que devo fazer quando encontro um estranho em minha casa?

— Tem razão. Foi um pouco dramático demais. Peço desculpas por isso — resmungou, enquanto tocava as mangas do terno com os dedos, distraído. O som das palavras se enrolava na língua dele e, por vezes, algumas consoantes e vogais se perdiam em seu discurso, porque tinha o sotaque latino. Ainda assim, a maneira como ele falava não atrapalhava a comunicação. Se era para ser justo, era até encantador a forma como ele construía as sentenças. Quanto mais ele falava, menos adrenalina corria no corpo do filho de Athena.

— Como é que chegou aqui? — Quis saber. Quase ninguém tinha acesso ao elevador particular e à cobertura que, como eu disse, ficava empoleirada sobre os mais de 50 andares do One Madison.

— Não costumo pensar sobre isso. — A questão pareceu martelar um pouco na cabeça dele. No meio do pensamento, ele pareceu ter desistido da tarefa. — Eu quis e aconteceu. Você também não devia pensar tanto nisso.

— Quem é você? — Era a pergunta seguinte. Fazia sentido. Era um semideus e coisas estranhas costumavam acontecer. Mas o discurso do homem misterioso em seu apartamento não fazia muito sentido. Precisava de um pouco de contexto.

— Essa é um pouco difícil. Está fazendo as perguntas erradas. Mas se vai te fazer confiar um pouco mais em mim, que seja. Sou o segundo. Somos sete, por enquanto. Sete é um número bom. Acho que numerologia tem alguma coisa a ver com sermos sete, sabe? Sete dias da semana, sete pecados, sete virtudes, sete novos deuses. Eu sou o segundo, então acho que você pode me chama de... — Buscava uma palavra na mente. Um sorriso bonito se formou em seu rosto, antes que ele sussurrasse. — Monday.

— Certo, Monday. — Sabia que aquele não era seu verdadeiro nome. Ainda assim, poder chamá-lo de alguma coisa parecia ter tranquilizado um pouco os nervos do filho de Athena. — Acho que se tivesse a intenção de me machucar, já o teria feito. Porque não se senta e explica melhor as coisas? — sentiu a cabeça latejar e os primeiros sinais de uma cefaleia tensional. Se antes as palavras bonitas do senhor Monday já não faziam sentido, a partir dali fariam muito menos. — Sem enigmas dessa vez. Por favor.

Monday era um homem de negócios. Na verdade, era O Homem de Negócios. Sabia vender uma ideia. Heron era um sujeitinho complicado. Desconfiado – e por que não seria, se isso foi o que o manteve vivo até então? Monday e Heron sentaram juntos numa ponta do grande sofá. Era tudo novidade para Heron. De certa forma, era tudo novidade para o outro também. Ainda assim, ele tomou algum tempo para explicar um pouco de tudo para o semideus.

Eram sete deuses. Sete divindades que surgiram de canto nenhum, mas da necessidade dos seres humanos em cultuarem novos deuses. Eram “novos” porque existiam há muito menos tempo do que os outros deuses. Não pertenciam aos deuses gregos, muito menos aos romanos. Não eram uma extensão desses dois panteões. Eram Os Sete e pertenciam a si mesmos e ao mundo, apenas. Monday era o segundo porque foi o segundo a surgir. A ideia parecia absurda. Mas não havia como negar que havia algo de especial no senhor Monday. As palavras fluíam de sua boca com naturalidade. É aquela sensação que se tem quando um comerciante sabe vender bem o seu produto. Tinha uma energia diferente em volta de si. Algo que Heron nunca havia sentido, mas era exatamente o que ele esperaria sentir vindo de um deus. Monday era como um ímã, mas seu campo magnético era, definitivamente, impossível de se resistir.

— E isso é possível? Não entendo muito bem como deuses podem surgir espontaneamente. — Não era como se não confiasse no deus. Mas tinha a curiosidade de saber como as coisas haviam acontecido.

— Não quero discutir muito sobre isso. — Monday virou o rosto em direção às janelas e Heron soube que havia feito mais uma das perguntas erradas. Monday conseguia transpirar desapontamento sem dar nenhum sinal disso. O pior é que Heron se sentia compelido a não decepcioná-lo por motivo nenhum. — A verdade, e me perdoe por isso, é que isso não é da sua conta. Mas os deuses estão diretamente ligados aos mortais e suas crenças. Não vamos nos perder muito nesse assunto. Que tal irmos ao que interessa?

— Certo. Estava pensando nisso também. — Heron franziu o cenho, pensando na pergunta. Inclinou-se em direção ao homem. Uma demonstração de ansiedade que, em outras ocasiões, ele teria reprimido. — Senhor Monday, o que quer de mim?

Quando desembaralhou um pouco as cartas na mente do filho de Athena, Monday decidiu partir em direção ao motivo pelo qual estava ali. Era hora de vender o produto. Precisava fechar um contrato com o senhor Devereaux. É verdade que a oferta era irrecusável. Monday oferecia a benção de sete deuses, quando Heron não tinha nenhuma. Sua vida estava prestes a tomar um rumo muito melhor do que ele havia planejado até então. Mas havia um porém, é claro. O deus explicou que uma trama estava prestes a se desenrolar. Os sete deuses elegeram um campeão que lutaria por eles. Um herói que trataria de encaminhar os eventos seguintes na direção certa. Heron era um vento forte e os sete deuses queriam surfar nessa brisa, como uma folha. Cabia ao vento guiar a folha para o melhor caminho.

— Que tipo de eventos? — Quis saber, porque fazia sentido perguntar. Mas Monday era muito vago. Usava as palavras de forma bastante moderada. Heron sabia que não conseguiria uma resposta para aquela pergunta.

— Isso também não é da sua conta. Pelo menos por enquanto — respondeu, franzindo os lábios. Media suas palavras sempre que possível. Mas, de vez em quando, tratava de colocar Heron de volta em seu devido lugar. Era um deus. Era orgulhoso. Todos eles são. — Os eventos são apenas as peças de dominó. Estamos interessados é no efeito que eles causarão.

— E que efeito seria esse, senhor Monday?

O sorriso no rosto de Monday era o mesmo que Heron via todos os dias no espelho. O deus sabia que aquele negócio estava prestes a se tornar concreto. As palavras a seguir tratariam de garantir isso.

— Quando todas as peças caírem, o que resta dos deuses antigos vai se perder junto com as civilizações que os cultuavam. No futuro, senhor Devereaux, só há espaço para sete. Só há espaço para Os Sete.

Monday puxou uma maleta escondida debaixo da mesa de centro, enquanto as palavras dele reverberavam na mente do filho de Athena. Uma vez foi acolhido pelo chalé de Hermes quando nem mesmo seu pai o queria. Sentou na mesa do deus e comungou com seus filhos. Mas isso foi há muito tempo atrás, e esses eram méritos de seus filhos – não dos deuses. A verdade é que os deuses nunca sorriram para Heron. E se os novos deuses estavam dispostos a jogar o álcool sobre os deuses antigos, Heron fazia questões de acender o fósforo e atear fogo em tudo o que representavam. Monday colocou a maleta sobre a mesinha, abriu e puxou para fora um documento e uma caneta. Heron franziu o cenho por um instante.

— Achei que era uma metáfora. Quer que eu assine um contrato mesmo?

— É como as coisas funcionam comigo. Sou um homem de negócios. Um contrato vale mais do que a sua palavra. — Ele colocou o documento sobre a mesinha e estendeu a caneta na sua direção.

— Acho que eu devia ler isso primeiro — decidiu. Suas palavras desenharam um sorriso no rosto do deus.

— É uma sabia decisão. Mas preciso que você dê um salto de fé. Se vamos fazer isso, preciso que confie em mim. Preciso que confie em nós, assim como confiamos em você. Pode assinar agora. Podemos discutir as clausuras mais tarde. Prometo ser bem flexível nesse sentido. — A caneta avançou um pouco mais na direção do semideus.

Duvidava bastante que aquele contrato tivesse algum valor jurídico. As palavras do deus faziam tudo soar mais como um teste do que um verdadeiro ato contratual. Heron hesitou por um instante. Há muito tempo, deu as costas para os deuses e suas vontades. Naquele momento, estava prestes a se submeter à vontade de sete deles. A maré subia em sua mente e os pensamentos erodiam a beira-mar. Queria ter mais tempo para pensar naquilo tudo. Mas Monday tinha pressa.

— Imagino que saiba que sou filho de Athena com um mortal. Parte de mim pertence a esses deuses antigos. — Odiou as palavras que saíram de sua boca, porque odiava pertencer a eles.

— Isso não é totalmente verdade. — O deus pareceu desconfortável. Se mexeu sobre o sofá. Se fosse um homem comum, teria suado um pouco. Mas não era. — Sabemos de sua condição, senhor Devereaux. Mas as coisas não são como o senhor pensa que são. É mais nosso do que é deles.

Os olhos do semideus encontraram a caneta, ainda estendida em sua direção. Queria argumentar contra o que Monday dizia. Não queria pertencer a ninguém. Pertencia a si e a nenhuma outra pessoa. Havia sido assim por bastante tempo. Mas a dor de cabeça martelava as ideias como pregos em sua mente. Ele suspirou. No fim das contas, era apenas um semideus. Se um deus havia descido até a altura de sua cobertura, não podia dar as costas às coisas que ele tinha para lhe dizer.

Apanhou a caneta. O polegar tocou o botão na extremidade, revelando a ponta. Ela deslizou sobre o papel branco, desenhando o nome do semideus em tinta azul-escuro. Heron Devereaux. Entregue aos deuses para que fizessem dele o que bem entendessem.

— É isso?

— É isso. — Monday tocou o ombro do rapaz, apertando-o de leve. A maré diminuiu em sua mente. Os pregos que a cefaleia martelava se enferrujaram, apodreceram e desapareceram. E aí, as ideias se alinharam. De alguma forma, ele sabia que isso tinha a ver com o deus.

Monday empurrou o contrato para dentro da maleta e puxou para fora uma segunda via, que ele deixou sobre a mesa de centro. Fechou sua maleta, colocou-se de pé e atravessou a sala de estar em direção ao elevador privativo. Virou o rosto em direção ao senhor Devereaux uma última vez, antes de entrar no elevador.

— Foi ótimo fechar negócio com você, senhor Devereaux. Desculpe pela... Bagunça. Vou entrar em contato quando estiver pronto. — Tantas perguntas por fazer. Agora que os pensamentos se organizavam, queria saber mais sobre tudo, porque percebia que ainda não sabia de quase nada. Mas as portas do elevador se fecharam e o latino de terno e sorriso encantador sumiu de sua vista.

Heron olhou em volta e ele percebeu que ainda estava imerso na escuridão. Não queria viver no escuro para sempre. Estava pronto para deixar a luz dos sete brilhar sobre ele.

Considerações:

Gente, tem esse treino aqui que ainda não foi atualizado.
Armas Utilizadas/Citadas:
▬ Nadinha
Poderes Utilizados/Citados:
Passivos


▬ Nada

Ativos


▬ Nada
Descontos de HP/MP:
-30 HP (pelos ferimentos causados por Monday)
-30 MP (de acordo com o Sistema de Gasto de MP padrão)

Não sei se a sugestão de descontos de HP/MP ainda é obrigatória, porque não vi em outras DIY's, mas tá no sistema, então tá aqui.
Extras:
Oi, obrigado por ler até aqui. Bom, essa é a introdução da minha trama. O prólogo é algo que será desenvolvido nas DIY's futuras. Já o resto, é o ponto principal da trama. Eu pretendo desenvolver a mitologia dos Sete e a relação deles com Heron logo em breve. Acho que essa trama é um pouco pretensiosa, porque coloca uma espécie de panteão ao meu favor. Mas não é bem assim. Os novos deuses não interferem diretamente nas coisas. Por isso eles precisam do Heron, aliás. Eu não pretendo ser incoerente, juro. Não me matem ainda. sz
Heron Devereaux
avatar
Filhos de Atena
Mensagens :
887

Localização :
Desaparecido

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Deus ama, o homem mata

Mensagem por 144-ExStaff em Qua 10 Out 2018, 22:47


Heron Devereaux




    Adorei seu enredo e a forma que narra o personagem envolvente que é o Heron, no entanto algo me deixou extremamente desconfortável. Tente prestar atenção na formação dos parágrafos, por exemplo, um com 248 palavras e outro com 30, mas isso não irá acarretar em descontos por hora.


PONTUAÇÃO:

— Coerência: 50 de 50 possíveis
— Coesão, estrutura e fluidez: 25 de 25 possíveis
— Objetividade e adequação à proposta 15 de 15 possíveis
— Organização e ortografia 10 de 10 possíveis
Total: 100 pontos (multiplicador = 4): 400
DESCONTOS:

-30 HP (pelos ferimentos causados por Monday)
-30 MP (de acordo com o Sistema de Gasto de MP padrão)



    Recompensa: 400 XP's e 40 dracmas


ATUALIZADO



144-ExStaff
avatar
Deuses
Mensagens :
1612

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Deus ama, o homem mata

Mensagem por Conteúdo patrocinado

Conteúdo patrocinado

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum