Sobre Hera

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Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:01

Hera
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:05

Hera, jônico, "heros", herói, como designativo dos mortos divinizados, "os protetores" e , se nesse caso, Hera significaria a Protetora, a Guardiã. A base seria do indo-europeu: serua...da raiz "ser", "guardar, proteger", donde o latim seruare, "conservar, velar sobre, ser útil". É bem possível que tanto heros quanto hera tenham origem prá helênica
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:06

A Ira De Hera

Não, isto ultrapassou todos os limites !!! Há muito que Zeus vinha lhe incomodando, desde o casamento que interessava mais a ele, onde jurou respeito e fidelidade, além é claro da promessa de parceria, que já descumpriu logo no primeiro dia após os 300 anos de lua de mel. Sim Zeus casara por interesse, e quebrou não só suas juras com a esposa, mas também as que fez com sua mãe que o criara em segredo na ilha de Creta, salvando-o do triste destino de habitar o escuro ventre de Saturno.

Criado em Creta e alimentado por mel, sempre foi mimado por Amalteia, uma ninfa cabra que além de lhe levar o fruto do trabalho das abelhas do monte Ida cretense, também o alimentava com seu próprio leite. Foi também protegido pelos Curetes, guerreiros elementais filhos de Gaia, fundidores de metais que gritavam e faziam danças guerreiras batendo com suas espada nos brônzeos escudos a cada vez que o pequeno deus chorava, divertindo-o e fazendo barulho suficiente para que Cronos não escutasse o seu choro. Pois bem, mesmo estes Zeus traiu. Mal-agradecido, usou a pele de Amalteia como escudo e matou os Curetes ao perder um filho de uma das suas vadias humanas.

Enquanto vociferava, Hera se despia de seus trajes divinos, sentia-se insultada demais. Zeus realmente não poderia ter feito aquilo. Despir-se é maneira de falar, pois esquecendo sua dignidade divina a deusa literalmente arrancava as suas roupas e continuava aos gritos que ensurdecia ao universo. Pois é, traiu a mãe e seus irmãos, pois Reia queria um mundo de igualdade, mas Zeus ao se casar com ela, a rainha dos céus e a dona da Terra, afinal era ela a Avatar de Gaia e nela estava todo o poder divino, assim o fez para trambicar seus irmãos. O escroque espertalhão, enganou também Métis, a prudência e a astúcia, que lhe deu a erva que fez com que Cronos, o da foice sangrenta, vomitasse a todos nós, seus irmãos, e o calhorda o que fez ? É claro que não a encheu de glória, mas a engoliu na primeira oportunidade após conquistar a soberania.

O Olimpo se esvaziara, afinal que dos deuses enfrentaria a fúria daquela vaca ensandecida? Creio que nenhum. E no silêncio a voz aguda da deusa criava tempestades que inundavam todo o mundo. Nua, soltou os cabelos, que caíram como ondas num mar de tempestades, e assim sem nenhum adorno a deusa dançou um conjuro para que Cronos, seu pai, paralisasse o tempo enquanto ela caminharia até os confins do universo, pois iria visitar seus pais adotivos, Oceano e Métis.

Clamando e esbravejando, a deusa com olhos de novilha desceu o monte Olímpico, vestida de ciclone, caminhou sobre a terra, acompanhada do cruel Boréas, deixando atrás de si um rastro de destruição e medo. Ia em direção aos confins da terra, para o ocidente além das colunas de Hércules, iria conversar com seus avós primordiais, falaria com Oceano e Tétis e pediria ajuda para um seu plano secreto. Naquele dia os humanos se trancaram em casa, o vento e a chuva os impediram de qualquer atividade, tudo que podiam fazer era orar pelos deuses para que parassem aquela tragédia, mas não eram ouvidos, até mesmo Zeus fugira para a Etiópia se distanciando do Olimpo.

Mas até mesmo os mais furiosos furacões se dissipam ao atravessar o Atlântico, e pouco a pouco sua Ira se esvai e a sua típica racionalidade retorna na mais impiedosa das faces. Ela se vingaria, com certeza ela se vingaria.
Seguia mais calma em direção ao grande rio-mar de água doce, morada de Oceano, e refletia. Tinha suportado todas estripulias de Zeus, se irritado com as traições sexuais dele, mas não o perdoava do roubo dos seus poderes, afinal, ele foi tão doce ao se transformar num cuco e se aninhar em seus seios virgens, foi tão sedutor ao lhe pedir em casamento e neste unir seu nome ao dela, como símbolo da sua aliança. Zeus Heraios seria o seu nome, mas passada a lua de mel nos jardins de Flora o único poder que deixou para ela foi o Matrimonio. Sorte das mulheres que poder não passou para as mãos deles.

A sede de poder de Zeus irritou a todos os deuses ancestrais, mas o pior ainda iria vir, roubou dela o poder da maternidade ao engolir Métis, coisa que nem o soturno Cronos ousou fazer. Mesmo Urano, o grande criador, tinha seus filhos com Gaia. Parir sozinho esta donzela a partir da sua mente, do seu pensamento, foi a gota d'água. Esta menina Athena vai chamar Zeus de Mãe e Pai?

E continuou seu pensamento: Não isto não vai ficar impune! Também gerarei sozinha, pois a força que gera é feminina, afinal tudo brota de Gaia. Vasculharei todo o universo para encontrar a maneira de fazer isto, irei até o Tártaro se for preciso, mas antes vou descansar com a doce Flora, que conhece todos os segredos das sementes e do nascimento da vida.

E como Flora contou ao poeta pedindo segredo para que Zeus não soubesse, e este nos relata, foi assim que aconteceu:

Eu que era a verdejante Clóris, sou agora chamada Flora, arrebatada por um vento morno e suave, vim semear a primavera em meus longínquos jardins, e eis que um dia, chega a minha porta a Crônida Hera. Fatigada e Furiosa com o seu touro, chegou como uma novilha desgarrada, e eu tento consolá-la com meigas palavras.

- As palavras ao meu mal não curam, pai sem mim se fez Zeus, o que era nosso se tornou só dele, e agora quem me proíbe ser mãe sem ele? Quero um Filho, mas o quero da maneira mais pura, sem quebrar os meus votos matrimoniais ou o pudor sagrado, pois se assim fosse me igualaria a ele.

E vendo-me perplexa, diz:

- Ignoro, ó ninfa, o que pensas, mas vejo em seu rosto, se não me engano, uns vislumbres de esperança.
Por três vezes eu quis aplacar sua angustia, e por três vezes me calei, mas quando ela invocou as geladas águas do Estinge e me jurou segredo eu lhe falei: O privilégio que hoje aspiras uma flor vai lhe dar. Tenho-a no meu horto, vem dos Olénios

Campos, disse a que me deu as sementes e fiz o encantamento:

"Novilha estéril, aplico-te esta flor e serás fecunda
Eis aqui o segredo, esta flor te aplico e estarás fecunda
Te aplico agora, (colheu a flôr e com ela a tocou 3 vezes o ventre e o seio casto)
Ei-la fecunda já, agora Deusa, concebe"

Hera volta para o Olimpo e se diz grávida de Zeus. Antes do parto viaja para a Trácia, onde dá a luz a Marte, que nasceu da Flor de Olene e da cólera de Hera.

Zeus ainda que acreditando ser seu pai, tinha várias razões para odiar o seu desenfreado filho, intempestivo e arrebatado. Além da parte que lhe cabia de Hera, Ares ainda ganhou as dádivas de Flora, pernas e braços ligeiros, com feições e vigor da eterna juventude. Ares encarnava a juventude masculina e a energia da flor da idade, a suprema força do guerreiro. Para Zeus, que perdera a juventude com a sina de destronar o pai, Marte era o reflexo do que ele devia ter sido, mas que no entanto não fora, pois só viveu o verão e o outono, sem conhecer a primavera de sua vida. Esta foi a vingança de Hera, fruto de sua ira. Dar a Zeus um filho que não era dele, mas que refletia toda a intempestividade e arrebatamento da juventude fazendo com que Zeus se visse velho e percebesse o quanto ele era ridículo em buscar e enumerar suas conquistas das adolescentes humanas. Todas as conquistas dele, suas amantes mortais, lhe pesavam nas costas ao fitar Marte.

Ps. Hera teve mais 3 filhos sozinha, e ao invés de marido passou a se referir a Zeus como Companheiro de Leito.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:10

As Bodas de Hera e Zeus

Era ainda muito criança quando Réia, sua mãe, a entregou aos cuidados de Tétis e das Horas. Queria salvá-la da fúria de Cronos, o pai terrível que devorava todos os filhos.
Longe do perigo, cresceu bela mas solitária. Um dia, recebeu no esconderijo a visita de seu irmão Zeus, que, depois de derrotar Cronos em violenta disputa, se tornara o senhor do Olimpo e da Terra.

Juntos, coversaram durante horas e horas. Falaram de tristezas pasasadas e futuros alegres. Hera sentia-se feliz.

Mas Zeus já estava tão apaixonado que não podia mais esconder os seus sentimentos, e declarou à irmã todo o amor e desejo que por ela nutria. Apenas ouviu recusas: não queria a Deusa ser mais uma de suas numerosas conquistas. Inconformado, tentou de todas as táticas e todas resultaram inúteis. Até que um dia de inverno preparou uma armadilha. Transformou-se em cuco, e assim, como um pássaro triste e quase morto de frio, foi visitar a irmã. Com muitos beijos, Hera tentou reanimá-lo. No calor dos seus seios, procurou aquecê-lo. Quando percebeu o ardil, era tarde de mais: tinha sido violentada.

Cheia de vergonha, pediu ao irmão que reparasse a falta. Zeus imediatamente prometeu esposá-la.

Todos os Deuses compareceram à cerimônia das bodas, e ofertaram à noiva presentes preciosos.

Ao término da festa, o casal partiu para a noite de núpcias, que durou trezentos anos. Depois, a Deusa banhou-se na fonte de Cánatos, em Náuplia, e recuperou a virgindade. Em seguida, foi com o esposo para o Olimpo, onde, ao lado de Zeus, senhor absoluto, ficaria reinando, bela e majestosa, em seu trono de ouro.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:12

Ironias da Cíprede

Muitas vezes vemos nos relatos mitológicos, a fúria de Hera com ciúmes de Zeus, embora eu acredite que não seja exatamente o ciúme o sentimento que mova Hera, mas sim o ultrage. Como a deusa máxima do panteão e esposa de Zeus, o que realmente cause sua ira é a falta de respeito para com ela, as traições de Zeus a tornam motivo de piada tanto entre os deuses como entre os humanos.
Segue um texto de Nono de Panópolis (Dionisíacas canto XXXI) que mostra toda ironia feminina de Afrodite, quando se mostrando preocupada com o semblante triste e sofrido de Hera, que a busca, para pedir emprestado seu corpete para seduzir Zeus.

"Assombrada e desprevenida, Afrodite pulou de seu assento vendo Hera chegar e ao perceber toda a aflição da Senhora dos Céus, disse estas palavras com duplo sentido:
Hera, amada de Zeus, por que este rosto tão pálido? Por que, ó Rainha, baixa os olhos com tristeza? Por acaso o chuvoso e trapaceiro Zeus, se transformou de novo em chuva? Ou novamente se transformou em touro para atravessar as úmidas águas? Por acaso é Europa que te desgosta outra vez? Ou será outra Antíope, que se uniu a um sátiro fingido em velados himeneus, contra a vontade do Pai Nicteu? Outro cavalo dotado de inteligência cavalga para uma nova boda, lançando no ar torpes relinchos, com o seu arremedo de boca? Ou acaso outra Semele com o fogo parturiente em meio a relâmpagos do filho do governador dos amores? Não será então que ele novamente marcha provido de cornos para o leito de alguma novilha que muge amorosamente? Quer me falar de outro espião de bois que segue os movimentos de Zeus, algum outro Argos com 100 olhos, que jamais dormem, lhe traz noticias das aventuras de outras aventuras do seu marido?
Responde o que te aflige e eu te ajudarei com tudo que estiver ao meu alcance."
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:13

Outra de Hera

Zeus e Hera sempre brigaram. Hera decidiu retirar-se na Eubéia. Quando uma grande deusa se oculta, o mundo logo perde a orientação. Zeus procurava por ela, "desprovido e errante". Vagava pela Beócia. O que fazer? Como retirar a deusa de seu esconderijo?

Foi um homem, Alalcomeneo, quem ensinou a Zeus o engano adequado. Devia fingir que casava com outra. E a outra devia ser um tronco de carvalho talhado em forma de moça e envolto em véus. Uma noiva inerte, a ser montada num carro que a conduzisse para as núpcias. Chamaram-na Dédala, como se dissessem Artefata, por ser a primeira criatura que incorporasse em si a arte. Quando a festa estava preparada e o carro com a nova, pudica noiva de Zeus já desfilava pelas ruas de Platéia, Hera não resistiu. Subiu no carro, observou sua imóvel rival, depois lhe arrancou os véus nupciais, tentando ferir-lhe o rosto com as unhas. Mas se deu conta de que um xóanon a olhava, um dos tantos pedaços de madeira que os templos custodiavam pela Grécia afora. Então a deusa riu. Foi uma risada estridente e cruel, de menina. E àquela risada se deve até hoje a integridade do mundo. Mas as mulheres de Platéia, naquele momento, não pensaram nisso. Viram a deusa colocar-se á frente do cortejo - e se juntaram. Primeiro ajudaram Hera a lavar a estátua no Ásopo, como uma noiva. Depois acompanharam o carro até um largo delimitado por carvalhos, em cima do Cíteron. A deusa mandou erguer uma grande pilha de lenha. Colocou no meio a estátua, com os véus rasgados. Em volta, nas traves do amontoado de madeira, os fiéis reuniram animais. Os mais ricos ofereciam vacas e touros. Derramavam vinho e incenso. Depois a deusa ateou o fogo.

A estátua virou cinza, enquanto os berros das bestas que ardiam vivas se sobrepunham ao crepitar das chamas. Muitos anos depois, no mesmo lugar, aqueles gestos ainda eram repetidos. Pausânias viu a fogueira e disse: "Não conheço um fogo que seja tão alto e se veja tão de longe".
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:14

“Flora conta a história do nascimento de Marte:

Marte - talvez vocês não saibam - foi criado pelas minhas artes. E eu rezo para que Jove nunca descubra tais fatos! A Sagrada Juno, quando Minerva, a nascida sem mãe, veio ao mundo, ficou magoada, pois Jove não necessitava mais de suas atribuições. Foi, então, queixar-se com Oceano sobre as ações do marido. Mas antes, parou em nossa porta, cansada da jornada. Assim que a vi, perguntei: “O que a traz aqui, Saturnia?”. Ela, então, informou para onde ia, e qual era a causa da viagem. Eu tentei consolá-la com palavras de amizade. “Palavras”, ela disse, “não podem aliviar minha dor. Se Jove pode ser pai sem ter uma esposa, e possuir os dois títulos nele mesmo, porque eu também não posso ter uma maternidade sem marido, um parto puro, sem o toque de um homem? Eu tentarei todas as drogas da terra, do Oceano e do Tártaro.

Seu discurso parecia certeiro; minha face demonstrou hesitação. “Você veja, ninfa, como pode ajudar”, ela disse. Três vezes eu quis ajudá-la, três vezes minha língua travou: a ira de Júpiter me causa muito medo. “Por favor, ajude-me”, ela disse, “Minha boca esconderá o segredo” e a divina Styx testemunha por isso.

“Uma flor”, eu disse, “do campo de Olenus. Garantirá seu desejo. É a única em meus jardins”. Eu disse: “toque uma vaca infértil, e ela será mãe”. Eu a toquei. Sem engano: engravidou.

Rapidamente arranquei a flor com meu dedão. Juno sentiu seu toque, e o toque da concepção. Sua barriga se encheu, e preencheu seu desejo: Marte foi criado. Relembrando meu papel em seu nascimento, o poderoso Marte disse, tempos depois: “Você, também, há de ter um lugar na cidade de Rômulo”.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:16

A Beleza de Hera

Após convencer a Afrodite a lhe emprestar seu corpete, Hera voltou ao Olimpo para adornar sua branquíssima figura. Ajeitou e fixou os cachos de sua basta e revolta cabeleira, firmando o contorno de seu rosto, vestiu com uma túnica brilhante, e a fechou com uma fivela resplandecente. Ungiu seu corpo e cabelos com azeite perfumado e quando caminhava embriagava toda a terra, mar e o ar com a fragrância de longo alcance daquele ungüento. Tinha em sua cabeça um diadema de ouro de fino trabalho onde estavam engastados fulgurantes rubis, companheiros do séqüito de Eros, os quais quando ela se movia lançavam as chamas da Cíprede em cintilações que brilhavam como fogo vivo em sua fronte. No colo levava aquela famosa jóia que desperta nos homens o desejo, com a pedra que tem o nome da encantadora Selene (selenita, pedra da lua) circundada pela a pedra amorosa de ferro que engendra o amor (magnetita – imã) presas ao cordão das pedras amorosas da índia (perolas, que também nascem nas conchas como a deusa do amor) mescladas com o escuro Jacinto, o amado de Apolo ( possivelmente safiras azuis).

Enfeitou os laços junto aos seios com a flor do amor, que a própria Afrodite adora como a própria rosa ou a anêmona (mirto) e levou junto a cintura uma bolsa onde guardou a antiga roupa do seu himeneu, ainda manchado com o sangue nupcial derramado na sua união com Zeus.

E após a ultima olhada no espelho, correu sobre os ares como um pensamento. E se aproximou de Zeus...
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:19

Os seguintes textos estão em Romano

JUNO, A RAINHA DO CÉU

— Sim, agora minha pequena Juno está a salvo... Mas até quando? Assim dizia Cibele, após ver resgatada, do ventre de seu cruel esposo

Saturno, a sua filha querida. O velho deus havia engolido um a um os seus filhos, tão logo estes haviam nascido; Júpiter, porém, lhe ministrara uma bebida encantada, obrigando-o a regurgitá-los de volta para os braços da mãe. Cibele, a precavida, imaginava agora um meio de manter a salvo a sua filha dileta.

"Tenho um pressentimento de que a ela está destinado um lugar de honra na corte celestial!", pensava a deusa, acariciando os cabelos de Juno.

Imaginava Cibele, como todas as mães, divinas ou não, que sua filha excederia em beleza e poder todas as outras filhas da face da Terra ou da imensidão do céu.

De repente seus olhos avistaram, para o ocidente, um fulgor intenso.

— É isto! — exclamou Cibele, feliz. — Levarei-a para o país das Hespérides! Hespérides eram três encantadoras deusas que governavam um país paradisíaco, onde a primavera era eterna e a necessidade não existia.

— Queridas amigas, preciso entregar a minha bela Juno aos seus cuidados, pois somente aqui ela estará em segurança.

Abriram um largo sorriso, enquanto uma delas envolvia a deusa em suas vestes esvoaçantes.

— Vá em paz, Cibele — disse esta. — Nós faremos da sua filha a mais poderosa das deusas.

Juno respondeu apontando o dedo para o céu.

O tempo passou e Juno tornou-se uma deusa de maravilhosa beleza. As Hespérides eram unânimes em reconhecer este seu atributo, que fazia par com o da perfeita sapiência.

— Vejam: os animais e mesmo as flores parecem ficar felizes tão logo sua presença se anuncia — diziam alegremente as irmãs, todos os dias, umas às outras.

Juno, contudo, apesar de estar satisfeita naquele lugar paradisíaco, ambicionava mais alto. Com olhos postos no céu, suspirava todos os dias:

— Tudo é belo... mas eu queria mesmo era ser rainha do céu.

Por uma natural inclinação, a moça procurava sempre os lugares mais altos da ilha para dar largas à sua imaginação. Havia um rochedo, à beira-mar, que era o seu refúgio especial.

— Mais um passinho e posso quase tocar o céu... — dizia ela, brincando e esticando seu alvo dedo.

Um dia, estando ali sentada, sentiu muito calor. Então avistou no horizonte uma nuvem que vagava meio sem jeito, como que perdida das outras.

— Adoro chuva! — pensou, esticando o pescoço na ânsia de ver as companheiras daquela comparsa extraviada. — O único defeito deste país encantador, se há algum, é o de chover tão pouco!

Então pôs-se em pé, cerziu os olhos e começou a pensar com toda a força:

— Quero muito que chova! Que chova muito! E o que quero!

Juno reabriu os olhos e viu que agora aquela nuvem mal-esboçada e solitária, lá adiante, havia ganho uma inesperada e rechonchuda companheira. A jovem fechou os olhos outra vez e repetiu com toda a força:

— Quero muito que chova! Que chova muito! É o que quero!

Quando reabriu outra vez os seus olhos, viu que um exército de outras nuvens havia se juntado à primeira, engolfando-a num turbilhão escuro e barulhento. Juno colocou-se na ponta dos pés e aspirou profundamente.

— Hmmm.... Perfume de chuva, não há outro igual.

Num instante as nuvens chegaram, e a jovem deusa comandou do alto ma tremenda tempestade, como nunca as Hespérides haviam visto. Os raios miam ao redor da jovem os seus espadins recurvos, porém sem nunca atingi-la, enquanto a água da chuva a envolvia num frescor delicioso.

Depois que a chuva passou e um vento fresco secou suas roupas, afastando-o para longe as nuvens tempestuosas, Juno olhou para o céu, novamente azul.

— Tudo é belo... Mas eu queria mesmo era ser rainha do céu.

Neste instante uma águia de asas imensas surgiu das alturas. A ave, após rodopiar ao redor da deusa, agarrou-a delicadamente e suspendeu-a no ar. Juno, embora surpresa, não se assustou; algo lhe dizia, secretamente, que o seu sonho começava a se concretizar.

— Para onde me leva, águia sutil?

Foram ambas subindo, a águia e a deusa, até que, adentrando o próprio céu. Juno viu-se diante do jovem Júpiter.

— Estou no céu! — gritou Juno, de olhos brilhantes.

O pai dos deuses explicou então a Juno tudo o que havia ocorrido e como ele a havia salvo do ventre do tirânico pai de ambos, Saturno.

Juno, agradecida, abraçou os joelhos de Júpiter. Depois disse a ele, radiante de esperança:

— Tudo o que você diz é belo... Mas eu queria mesmo...

O pudor, entretanto,impediu-a de repetir pela milésima vez o seu desejo.

— Sim, adorada Juno, você será, sem dúvida, rainha do céu — completou Júpiter, sorridente, que escutara diversas vezes, ali do alto, a jovem clamar por seu desejo. — Desde que a vi manejando a tempestade e orquestrando os raios, decidi que seria a esposa ideal para mim.

E foi assim que Juno casou-se, tornando-se Rainha do Céu e dando início à história do casal mais famoso da mitologia antiga.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:20

O CASTIGO DE QUELONE

O Olimpo estava em festa: Júpiter e Juno iriam finalmente se casar.

As duas imensas portas do Empíreo, algodoadas de nuvens, haviam sido abertas de par em par pelas três Horas — Eunomia, Dice e Irene -, que faziam o papel de anfitriãs. Atrás delas podia-se divisar perfeitamente o brilho feérico e resplandecente do palácio dourado onde iria se realizar a tremenda festa.

Os convidados iam chegando em grande número, atravessando a ponte multicolorida do imenso arco-íris.

— Vejam, irmãs — disse Eunomia, radiante -, quantos convidados! Estejamos atentas para que não nos escape presença alguma.

— E nenhuma ausência, também! — disse Dice, cuja tarefa era ir riscando os nomes dos convidados que chegavam.

Os principais deuses do panteão olímpico iam chegando, sozinhos ou aos pares, conversando alegremente. Ceres, vestida com uma túnica drapejada e esvoaçante, surgiu, entre tantas outras divindades, toda sorridente.

— Nossa! — disse Irene, a porteira esbelta. — Ela caprichou mesmo! Junto dela estava Minerva, a deusa da sabedoria.

— Sempre recatada, mas também sempre encantadora! — comentou Eunomia, afastando-se um pouco para permitir a sua passagem.

Apólo e sua irmã Diana vinham abraçados, dando uma gostosa gargalhada. Do que riam tanto?

Os grupos foram passando um a um até que chegou o casal mais curioso: a maravilhosa Vênus e seu truculento esposo Vulcano.

— Vejam só, será que finalmente ele resolveu tomar um banho? — cochichou Irene à sua irmã Dice, que ocultou no véu um sorriso discreto.

De fato, o deus das forjas, normalmente coberto de fuligem, naquele dia surgira diante de todos um pouco mais apresentável, apesar de toda a sua feiúra. Seus cabelos emaranhados pareciam ter sidos apresentados finalmente a uma escova, e algo parecido com uma esponja parecia ter sido esfregado sobre o pêlo espesso do peito e dos membros.

Quase todos os convidados já haviam chegado, inclusive Netuno, com sua corte aquática, úmida e festiva, e o sombrio cortejo de Plutão, que trazia pelo braço sua esposa Prosérpina, pálida como sempre, porém um pouco mais animada.

De repente, porém, Eunomia, que passava em revista com suas irmãs a enorme lista com os nomes riscados, escutou uma voz soar bem ao seu lado.

— Porteiras do Olimpo, como estão? Era Mercúrio, o deus dos pés ligeiros.

— Ótimas! — respondeu Irene, pelas três. — Acho que não falta mais ninguém, e você deve ser o último.

Na verdade Mercúrio fora o encarregado de levar os convites do casamento a todos os recantos do Universo. Finalmente, retornava de sua trabalhosa missão.

— Não, esperem! — gritou Eunomia, colando o alvo dedo sobre um nome da lista.

Os rostos das duas irmãs, mais o de Mercúrio, voltaram-se atônitos para ela.

— Como? Ainda falta alguém? — perguntou o deus mensageiro.

— Sim, a ninfa Quelone! — exclamou Eunomia. — Alguém a viu passar? -Não, ninguém a vira passar.

— O que terá acontecido? — disseram as Horas numa só voz. Mercúrio apertou um pouco mais as suas sandálias aladas e desapareceu como um pé de vento pela estrada colorida, deixando somente a sua voz:

— Vou refazer o trajeto até sua casa e ver o que houve!

O filho de Júpiter percorreu grande parte da estrada, e quanto mais avançava, mais temia pelo atraso — ou mesmo pela ausência definitiva da ninfa Quelone.

"Por Júpiter, se Juno descobre que ela ignorou sua festa, a matará!", pensava o deus mensageiro, enquanto apertava o pétaso para que não voasse de sua cabeça.

Quelone, entretanto, ainda estava descansada em sua casa, à beira do rio.

— Que calor! — disse ela, espreguiçando-se. — Essa tal de Juno, também, pensa que eu sou o quê, para me largar desta distância toda até a sua casa? Só para ir lhe bajular?

A vontade de ir para a festa de casamento de Juno era nenhuma. Na verdade não tinha vontade de fazer nada. Sim, porque apesar de ser uma ninfa adorável, era também a mais preguiçosa das criaturas. "Miseravelmente preguiçosa", como lhe dissera um dia um fauno das redondezas.

Por diversas vezes Quelone ensaiara a sua ida ao casamento. Na verdade, passara a manhã toda indecisa: que roupa usaria, afinal? Mais vaporosa ou mais discreta? Isto implicava uma escolha — e escolher era tão cansativo! E o maldito penteado, solto ou preso? Pintaria ou não as suas compridas unhas? Ai! Dez unhas nas mãos e mais dez lá nos pés! E a que horas deveria sair? Um pouco mais cedo ou bem mais tarde?

Afinal de contas, deveria mesmo ir?

Cogitando e refrescando os pés na água, a ninfa deixava o tempo passar.

— Acho que agora não dá mais tempo... — pensou, ao observar o sol lá no alto. De repente, Mercúrio tapou o sol. Quelone, já de olhos fechados, murmurou."

— Ih, agora é que não vai dar para ir mesmo... Lá vem chuva!

— Sua preguiçosa, eu já imaginava! — disse o deus, pousando ao seu lado. Quelone levantou-se, de susto.

— Ah, é você? — disse ela, com a mão em pala sobre os olhos. — Sempre correndo pra cima e pra baixo, não é?

— Voando, querida, voando! — respondeu Mercúrio, passando uma água no rosto.

— Humpf! — fez Quelone, esgotada, fechando os olhos outra vez.

— Vamos, levante-se, preguiçosa! Está quase na hora das bodas de Juno.

— Não posso — disse Quelone. — Acordei com o pé machucado.

— O lençol o esmagou? — perguntou Mercúrio, com um tom de mofa.

— Ai, é verdade — disse a ninfa, colocando-se em pé com fingida dificuldade. Mas o deus não estava para lorotas e, em dois tempos, colocou-a no rumo da estrada. Mas a ninfa teimava em atrasar o seu passo: ora parava para descansar, ora simulava uma insolação. As horas passavam, e Mercúrio, aflito, sentia que daquele jeito jamais chegariam.

— Bem, adeus, vou indo na frente, senão Juno também me matará! — disse o deus, perdendo de vez a paciência.

— Isto, vá logo, apressadinho! — disse Quelone, sentando numa pedra azulada, bem no começo da longa estrada do arco-íris que levava até o palácio de Júpiter. — "Por que não me levou nos braços, então, se estava com tanta pressa?", perguntou-se, mal-humorada. "Depois a preguiçosa sou eu!"

Quelone adormeceu bem na entrada do arco-íris. Quando acordou novamente, a magnífica festa já havia acabado. Grupos alegres já voltavam, cruzando por ela.

— Que festa, hein? — dizia um fauno, todo descabelado.

— Esta, sim, valeu a pena! — dizia uma nereida, que parecia ter abusado um pouco do vinho.

Deuses, ninfas, faunos, todos esbarravam em Quelone, que era a única a seguir em sentido contrário.

— Esqueceu algo, querida? — perguntou-lhe Dóris, esposa de Nereu.

— Não me amole — replicou Quelone.

Apesar da festa já haver acabado, ela ainda tentava avançar, nem que fosse para se explicar com a nova rainha do céu.

— "Rainha do Céu!" — tripudiou a ninfa. — "Ai, Rainha do Céu, desculpe o atraso!" "Tudo bem, Rainha do Céu?" "Quem diria, hein: Rainha do Céu!" Quer saber de uma coisa? Vou é voltar já para casa!

E voltou mesmo. Um pouquinho mais rápida, desta vez.

Quando chegou lá, jogou-se em seu leito, exausta. Mas Mercúrio a aguardava.

— Você não foi até lá, então? — disse o deus, com o cenho franzido.

— Não incomoda, pé-de-vento! — resmungou a ninfa, cobrindo o rosto. -Diz lá pra Rainha do Céu que um dia desses apareço para dar os parabéns.

Mercúrio, perdendo definitivamente a paciência, pegou-a pelos pés e arrojou-a dentro do lago. Em seguida lançou também a própria casa da ninfa em cima dela.

— Aí está! — disse o deus, dando as costas e indo embora.

A pobre Quelone ressurgiu instantes depois das profundezas do lago. Seu rosto estava mudado, e era como o de um enrugado lagarto. Tinha agora quatro pernas — quatro pernas imensas — e em cima de suas costas pesava a sua antiga casa, virada numa imensa e pesada carapaça. E Quelone nunca fora tão lenta como agora!

Assim a ninfa que faltou à cerimônia de casamento do grande Júpiter e da poderosa Juno foi transformada no animal hoje conhecido como tartaruga.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:23

ARGOS E IO

Amanhecia no Olimpo. Juno, a rainha dos céus, acordara há pouco e percebera que estava só em seu leito. Júpiter, seu esposo, já havia levantado.

"Por que terá levantado tão cedo?", perguntou-se Juno, algo desconfiada. Há vários dias o seu esposo vinha apresentando um comportamento estranho. "Deve estar me preparando alguma...", pensou consigo mesma.

Abrindo as cortinas de seu maravilhoso quarto, a ciumenta deusa relanceou o olhar por sobre a vastidão do mundo, até fazê-lo recair, finalmente, sobre uma imensa nuvem escura que cobria a região que cercava o rio Ínaco, na Grécia. Curiosa, Juno resolveu descer até lá para ver o que se passava. Em má hora. porém, tomara esta decisão, pois abaixo desta grande nuvem escura estava seu marido, Júpiter, fazendo amor com a ninfa Io, filha do rio. Há vários dias que o deus adquirira o hábito de dar estas ligeiras escapadas até as margens daquele rio, para desfrutar dos prazeres da nova amante. Como temesse, porém, que a sua esposa viesse um dia a descobri-los, estendera sobre o céu daquela região um imenso tapete de nuvens negras. De repente, sua bela amante, que estava deitada sobre a relva, percebeu que a nuvem se desfazia e que em meio a seus farrapos surgia a robusta e vingativa Juno.

— Júpiter, sua esposa está chegando! — exclamou, assustada, a bela ninfa, procurando cobrir-se rapidamente.

Júpiter, levantando a cabeça do peito nu de Io, voltou o olhar para o céu, enquanto passava a mão em seu manto. Imediatamente ergueu-se, com os cabelos ainda revoltos, e disse à bela amante:

— Não se assuste, Io querida, mas serei obrigado a metamorfoseá-la em algo...

Sem esperar resposta, transformou-a numa novilha.

No mesmo instante, Juno descia à Terra, pousando às margens do rio.

— O que faz aqui, parado diante desta vaca? — perguntou a deusa, irritada.

— Eu? — gaguejou Júpiter. — Bem, eu estava passeando por esta bela região quando vi pastando mansamente, às margens deste belo rio, esta encantadora novilha. Achei-a tão linda que fiquei observando-a um pouco.

Juno, fingindo acreditar nesta desculpa indigna de um deus, acercou-se da novilha, como se fascinada com a beleza do animal:

— É, de fato, uma bela novilha — disse, alisando o pêlo sedoso e macio. Estudou o animal durante um tempo, enquanto Júpiter a observava, temeroso.

— Realmente magnífica — disse a deusa, por fim. — Dê-a para mim, querido Júpiter!

O pai dos deuses não sabia o que dizer, diante do inesperado pedido. Como negar o presente, sem atiçar de modo definitivo as suspeitas da esposa? Viu-se ?brigado a ceder o animal a Juno, e assim foram embora, a novilha sendo puxada pelos cornos pela satisfeita deusa, que parecia muito feliz com o presente.

Tão logo chegaram ao Olimpo, Juno chamou o seu fiel criado Argos:

— Argos, tenho uma tarefa para você — disse, de modo imperioso.

— Pois não, rainha das deusas — disse a estranha criatura, que possuía cem olhos.

— Está vendo esta novilha? — perguntou Juno, apontando para Io disfarçada.

— Sim, poderosa Juno, meus cem olhos não poderiam deixar de admirar tão belo animal.

— Silêncio! — disse a deusa, com rispidez. — Quero apenas que a leve para um local afastado, mantendo-a sob a mais estrita vigilância.

Argos obedeceu, retirando-se logo em seguida juntamente com a infeliz >. A pobre ninfa derramava escondida grossas lágrimas de pesar, enquanto era carregada pelo horrendo criado para um vale deserto. Uma vez ali, Argos soltou-a, sentando-se numa alta pedra, de onde podia observar toda a região.

Assim, fosse dia ou noite, a atenta criatura jamais despregava sua multidão de olhos da infeliz Io. Nem para dormir o gigante deixava de vigiá-la, pois jamais fechava mais de dois olhos durante o seu sono desperto. Desta maneira viveu Io durante muito tempo, lamentando a sua sorte: "Jamais me livrarei da vigília deste maldito monstro", ponderava a pobre Io, enquanto arrancava do solo os horríveis tufos de grama, que engolia sem mastigar.

Júpiter, saudoso dos prazeres de sua adorável Io, foi disfarçadamente até os estábulos do Olimpo e lá ficou sabendo do ardil da esposa. Indignado, mandou chamar imediatamente o seu fiel Mercúrio.

— Tenho uma sigilosa missão para você — disse o deus dos deuses para o filho. — Quero que você descubra onde está a minha adorada Io e a traga de volta. Mas antes deverá matar Argos, o gigante que a mantém prisioneira.

— Assim o farei — disse Mercúrio, disposto a dar cumprimento às ordens. Disfarçou-se em pastor, escondendo as asas num manto que o envolvia por inteiro. Levava consigo o caduceu, bastão de ouro capaz de fazer adormecer qualquer ser vivente.

Em um instante Mercúrio percorria velozmente todos os vales e pastos da Grécia, tentando descobrir onde estava o esconderijo de Io. Sobrevoava uma certa região quando finalmente a avistou. Tomando o aspecto de um pastor, juntou algumas ovelhas e desceu à Terra. Foi se aproximando, lentamente, com um ar distraído, enquanto tocava sua flauta de Pã.

— Que instrumento maravilhoso é este? — perguntou Argos, tão logo percebeu a chegada do forasteiro. — Aproxime-se, jovem pastor, e toque um pouco mais

— Lindo dia, não? — foi dizendo de modo jovial o pastor, fingindo não perceber a novilha, já que Argos permanecia com seus outros noventa e nove olhos postos sobre ela. — Esta é minha flauta, e com ela procuro distrair o tédio durante minhas caminhadas — disse, chamando a atenção do segundo olho do monstro.

"Onde arrumarei mais noventa e oito novas distrações?", pensou Mercúrio.

— Esta bela flauta que você está vendo foi criada pelo deus Pã — continuou a dizer o filho de Júpiter. — Existe, a propósito, uma lenda interessante que descreve a sua invenção.

— E mesmo? — disse Argos, que adorava lendas.

— É uma bela história, na verdade! — acrescentou Mercúrio e em seguida começou a narrá-la, tornando-a aborrecida na tentativa de adormecer o monstro. Haveis de saber, ó vós que me ouvis, que em eras mais recuadas os mais encantadores e majestosos bosques de toda a Grécia foram brindados com o surgimento de uma esplendorosa ninfa. Seu nome era Sirinx, cujos lábios carmesins tinham o odor das açucenas e o tom escarlate das cerejas...

Ele contou, naquele mesmo estilo enfadonho, que a bela ninfa jurara jamais se entregar a homem algum, sendo devota fiel de Diana, a deusa da caça e das matas, protetora da virgindade. Um belo dia o deus Pã, passando por uma vereda do bosque, avistou-a voltando da sua caçada e apaixonou-se perdidamente. Saiu correndo em seu encalço, mas a ninfa fugiu a toda pressa por entre as árvores do bosque, até chegar à margem do rio. Ali o impaciente Pã, num salto ágil de seus pés de bode, conseguiu agarrá-la pela cintura. Apavorada, Sirinx pediu o auxílio de suas amigas ninfas, que imediatamente a tiraram das mãos do sátiro, deixando em seu lugar apenas um feixe de juncos. O pobre Pã, desconsolado, deixara-se cair ao chão, segurando o seu miserável prêmio. No entanto, ao dar um suspiro, seu sopro passou por entre as varetas, produzindo um som melodioso, que encantou o infeliz amante. Tomou alguns dos juncos, de tamanhos desiguais e, colocando-os lado a lado, criou um novo instrumento, conhecido por "flauta de pã", que o consolou da perda que sofrerá.

Mal Mercúrio terminou de contar essa história e o seu adversário já havia adormecido. Assim que ele percebeu que todos os olhos de Argos estavam cerrados, tomou sua varinha mágica e redobrou de intensidade o sono do inimigo. Depois, puxando da sacola uma grande espada, aproximou-se da presa fácil e desceu a lâmina sobre o pescoço do pobre Argos, decepando sua cabeça, que rolou pelo chão com seus cem olhos arregalados de espanto.

Retirando Io daquele lugar maldito, disse-lhe:

— Pronto, agora já está livre!

Juno, ao descobrir o horrível fim que tivera Argos, encheu-se de tristeza. Depois, recolhendo os cem olhos do monstro, colocou-os na cauda de seu pavão de estimação, homenageando desta forma o seu desastrado e infeliz servidor. Mas ela, que não era mulher de lamentações, decidiu ainda se vingar da causadora daquela tragédia. Para tanto convocou ao seu palácio uma das Fúrias, as deusas do ódio, da vingança e da justiça, nascidas do sangue de Urano quando este fora mutilado.

A deusa dos castigos apresentou-se imediatamente.

— Quero que você atormente esta desgraçada, perseguindo-a até os confins da Terra! — ordenou Juno, tomada pela cólera.

A Fúria, tomando a forma de uma gigantesca mosca, saiu pelos ares em busca de Io, que ainda estava metamorfoseada numa novilha. Tão logo a avistou, voou até ela cobrindo-a de picadas. Io, apavorada, disparou numa correria louca pelo mundo, levando sempre atrás de si o terrível inseto. Fugiu, atravessando vários países, até chegar às margens do Nilo, onde tombou, enfraquecida pela fadiga. Júpiter, sabedor de mais este ato de crueldade da incansável esposa, decidiu pedir perdão a ela, prometendo que jamais tornaria a procurar a bela Io, desde que Juno cessasse de atormentá-la e lhe devolvesse a sua antiga forma.

Juno aceitou a proposta, e assim, Io, enquanto se recuperava do cansaço, ainda às margens do Nilo, percebeu que retomava, aos poucos, seu antigo aspecto. Seu rosto lentamente diminuía de tamanho, enquanto seus chifres recuavam para dar lugar outra vez a seus negros e sedosos cabelos. As patas dianteiras foram ganhando novamente o formato de seus antigos braços, enquanto os cascos retornavam à condição de mãos. Tão logo retomou a sua esbelta forma, passou a viver no seu novo país, onde se tornou uma deusa muito venerada.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:24

AS SANDÁLIAS DE JASÃO

Jasão é, junto com Hércules, um dos maiores heróis gregos que a história lendária registra. Sua vida é repleta de fatos notáveis, e suas aventuras pedem um romance inteiro para ser contadas. Seus feitos, contudo, podem ser perfeitamente fragmentados sob a forma de pequenos episódios, de tal sorte que o leitor pode lê-los alternadamente, sem perder nunca o fio da meada.

O primeiro episódio de relevância — ainda que um tanto singelo — ocorrido na vida do grande Jasão deu-se ainda na sua juventude. Seu pai, o rei Esão, havia passado o governo de seu país para o seu próprio irmão, Pélias. Estabelecera, no entanto, a condição de que a coroa deveria ser passada a seu filho Jasão — e sobrinho de Pélias — tão logo este alcançasse a maturidade.

Enquanto isso, Jasão teve a sua educação posta aos cuidados do centauro Quíron, num lugar distante dali. Junto a esse personagem, Jasão desenvolveu todas as suas aptidões, das quais faria uso mais tarde nas suas inumeráveis aventuras. Os anos se passaram até que, completada a sua educação, Jasão retornou para a sua pátria, pronto a herdar o trono que por direito lhe cabia. Como gostava muito de caminhar, Jasão preferiu fazer seu longo percurso a pé, conhecendo muitas terras e climas.

Um dia, chegando próximo de um largo rio, preparava-se para atravessá-lo, quando avistou às margens uma velha, curvada pelo peso dos anos. Jasão -que já despira seu manto, para fazer mais livremente a travessia — ficou sem graça ao perceber que a velha erguera a cabeça branca, detendo-se a estudá-lo com seus olhos cansados.

Jasão, tendo aprendido que o respeito aos velhos era sua primeira obrigação, adiantou-se em direção a ela, procurando ocultar as suas partes.

— Perdoe, minha senhora, por me apresentar desta maneira — disse o jovem Jasão, que não era então mais que um garoto.

— Não se acanhe — disse a velha. — Meus olhos já estão cansados para quase tudo, menos para a beleza. Para ela, ainda tenho luz no olhar.

De fato, a velha não tirava seus olhinhos franzidos do corpo do jovem. Sua malícia residual parecia guardar ainda o frescor de sua remota juventude. Jasão julgou, por um momento, enxergar por detrás dos traços cansados da velha um resto de sua antiga e extinta beleza.

— Posso ajudá-la de alguma maneira? — perguntou, procurando desviar da cabeça aquelas estranhas cogitações.

— Gostaria que me ajudasse a passar para o outro lado — respondeu a velha, passando a língua seca sobre os lábios murchos. — Veja, sou fraca, e os anos não permitem mais que me aventure a mergulhar sozinha nestas águas.

Jasão imediatamente suspendeu-a em seus braços, escorando-a nos ombros, pronto a carregá-la até a outra margem. A velha, sem se fazer de rogada, abraçou-se ao torso dele, colando seu rosto familiarmente ao ombro do jovem.

Jasão atravessava as águas do rio, calculando seus passos. Não podia deixar de notar que a velha ainda possuía mãos macias, que deslizavam sobre suas costas de modo inquieto. "E pena ser uma velha", refletiu, censurando-se pelos maus pensamentos.

Mas aquilo parecia não ser apenas uma impressão. Jasão agora sentia que as mãos dela passavam sobre sua nuca, subindo até o topo da sua cabeleira negra e esvoaçante. Sem poder se conter mais, virou seu rosto para a face da velha, algo escandalizado.

— O que foi, meu rapaz? — disse a anciã, com um sorriso que parecia lhe trazer de novo toda a juventude ao rosto.

— Nada, nada, minha senhora... — replicou Jasão, vexado de sua má impressão. No entanto, ao desviar os olhos não pôde deixar de passá-los de relance pelo busto da idosa mulher, que se exibia livremente pelo decote da esfarrapada túnica. Pela abertura, entreviu perfeitamente um dos seios, absurdamente firme e rijo, como o de uma mulher na mais verdejante juventude. "Estou delirando!", pensou Jasão, atarantado. Por um momento teve o instinto de largar a velha no rio e deixá-la ali, sozinha, a debater-se nas águas. "E se for uma feiticeira?"

Sua reflexão foi bruscamente interrompida quando sentiu que a mão da velha — tinha a absoluta certeza — pressionava as suas costas de um modo absolutamente inconveniente e constrangedor.

— O que é isto, minha senhora? — exclamou, surpreso.

Uma gargalhada sonora, jovial e cristalina, ressoou em seus ouvidos. Assustado, Jasão voltou-se outra vez para a velha. Mas não tinha mais diante de si a face enrugada de uma anciã, mas uma face divinamente jovem, que tinha, no esforço do riso, os olhos franzidos sem o menor vestígio de rugas. Seus dentes, claros e cristalinos, brilhavam sob a luz do sol, enquanto os lábios mostravam-se carnudos e rubros como os de uma jovem no auge da beleza.

— Não se assuste! — disse a encantadora mulher, ainda em seus braços. -Foi apenas uma brincadeira.

Jasão, ainda encabulado — e um pouco amuado por ter sido feito de bobo -, tinha agora em suas mãos duas coxas firmes e palpitantes.

— Eu sou Juno, a rainha dos céus — disse a mulher-, e estava apenas testando o seu caráter.

A ciumenta e virtuosa esposa de Júpiter, como se vê, cansara de sofrer as traições de seu volúvel marido e fora se divertir um pouquinho também. O que a deusa perdeu em virtude ganhou em charme e encanto. Nunca seu riso foi tão espontâneo, e seus gestos, tão livres e doces. Em vez de queixas e recriminações, da sua boca saíram, agora, somente uma risada franca e algumas palavras inocentemente maliciosas.

— Porque me ajudou a cruzar este rio, decidi tomá-lo sob minha proteção -disse Juno ao surpreso Jasão, fazendo-se de séria. — Já sei que você é um homem de caráter e fidalguia.

A seguir, retomando seu bom humor, pôs-se de pé, deixando nas mãos do herói os farrapos de sua velha túnica. Lado a lado com o herói, permitiu-se a liberdade de continuar abraçada, mas seguindo com as próprias pernas.

Juno parecia ter melhorado ainda mais o seu humor; enquanto torcia os fios de seus cabelos molhados, cantava uma canção descontraída, muito diferente dos aborrecidos hinos que era obrigada a escutar todos os dias em seu templo. Jasão, que completara a sua educação nas águas daquele maravilhoso rio, também estava alegre. Encontrava-se muito distraído, tanto que acabou esquecendo uma de suas sandálias na margem do rio, seguindo o restante do percurso até sua casa com um dos pés descalços.

Um oráculo feito há muito tempo ao seu tio, Pélias, dissera que ele deveria temer um homem que surgiria desprovido de calçado. Quando Jasão chegou no reino que lhe estava prometido, o rei, sabendo da sua chegada, correu, inquieto, a recebê-lo.

— Há quanto tempo, meu querido sobrinho! — disse Pélias, com um sorriso amarelo, que desapareceu inteiramente de seu rosto ao olhar para um dos pés descalços do jovem.

— O que houve com a outra sandália? — perguntou.

— Ah, perdi no caminho... — respondeu o herói, distraidamente.

Isto deu ao pérfido rei a certeza de que Jasão era o homem da profecia. Cumpria, pois, desvencilhar-se dele imediatamente. Além do mais, Pélias jamais pensara em devolver o governo do reino às mãos do filho do antigo rei. Depois de receber o jovem em seu palácio, teve com ele uma longa conversa, querendo saber tudo sobre a sua educação. As palavras do jovem Jasão, no entanto — que ainda era um pouco ingênuo -, lhe entravam por uma orelha e saíam pela outra. Pélias tinha sua mente ocupada, pensando em como afastar de si o importuno sobrinho. Como fazer para matar o rapaz, sem que o acusassem do crime?

Durante toda a noite pensou sobre isto. No outro dia, logo cedo, chamou o jovem à sua presença.

— Jasão, o trono é seu! — disse o rei interino. — Pode ocupá-lo já, se quiser — disse Pélias, estendendo-lhe o cetro e apontando a magnífica cadeira dourada.

O jovem, passando as mãos nos cabelos, deu um ligeiro suspiro de apreensão. Já se dispunha, no entanto, a assumir as suas funções, quando o rei o atalhou:

— Antes disso, porém, tenho uma sugestão melhor a lhe fazer. Caso você consinta em abraçá-la, fará de você um rei maior do que qualquer outro — disse Pélias, estendendo os braços, como se abarcasse com eles o mundo.

O jovem escutava as palavras do tio com atenção.

— Que tal, antes de assumir o seu posto, partir em busca do Velocino de Ouro?

Jasão conhecia a fama de tal aventura — tida por impossível, já que o tal Velocino, segundo diziam, estava protegido por um monstruoso dragão.

— Mas isso é uma tarefa que está, com toda a certeza, além de minhas forças — respondeu, ao mesmo tempo fascinado com o desafio e inseguro de sua pouca experiência para tentar tamanha proeza.

— Nada estará além de você, desde que ponha nisto sua fé e energia -disse-lhe o tio, tentando enganá-lo com sua filosofia barata. — Além do mais, os deuses estarão do seu lado!

Jasão lembrou-se imediatamente da promessa de proteção que Juno lhe fizera enquanto ele a carregava nos braços. Empolgado, resolveu pôr à prova a sua juventude e energia. Num ímpeto característico de sua idade, exclamou, diante do trono:

— Está bem, aceito seu conselho, meu tio. Partirei com alguns homens pelo mar até alcançar o reino onde se esconde o Velocino de Ouro e o trarei, para honra e glória de meu futuro reino.

Pélias, já dando o sobrinho por morto, abraçou-o efusivamente:

— Que os deuses o protejam e você seja feliz em sua gloriosa aventura!

E foi assim que começou a famosa jornada de Jasão e os Argonautas em busca do Velocino de Ouro.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:28

É bom colocar isso:

OS DOZE TRABALHOS PE HÉRCULES

O maior dos heróis teria de ter o maior dos contos, também.

O famoso e intrépido Hércules era filho de Alcmena, casada com Anfitrião. Júpiter, tomando um dia a forma de Anfitrião, fecundou-a, dando origem ao herói grego. Junto com ele nasceu outro menino, chamado Ificles, este filho de Anfitrião, que se tornaria tão obscuro quanto Hércules se tornaria famoso.

Juno, a ciumenta esposa de Júpiter, naturalmente não gostou nem um pouco da infidelidade do marido e tomou-se imediatamente de antipatia pelo filho bastardo de Júpiter.

Certa vez, Alcmena, a mãe dos dois garotos, após tê-los banhado e amamentado, deitou-os sobre um escudo de bronze. Enquanto os meninos brincavam e pedalavam o ar no berço improvisado, duas serpentes surgiram se arrastando insidiosamente em direção a eles. Vinham as duas a mando de Juno, a vingativa esposa de Júpiter, para acabar com a vida de Hércules.

O pequeno Ificles deu um grito de susto ao ver os répteis avançando. Mas Hércules, que desde o berço jamais soubera o significado da palavra medo, pulou do escudo e caiu sobre os dois répteis. Com uma serpente em cada uma das mãos, apertou-lhes o pescoço com tanta força que em segundos as estrangulou, salvando a si e ao irmão da morte certa.

Hércules cresceu e casou-se com Megara, filha de Creonte, com quem teve vários filhos.

Porém, mesmo depois de Hércules ter se tornado um adulto, Juno, a esposa de Júpiter, continuava ressentida com ele. Concebeu, então, um plano macabro que pouco condizia com a dignidade de uma deusa.

Hércules estava certo dia com a esposa Megara e seus filhos, quando foi tomado de uma súbita loucura. De repente seus olhos começaram a se arregalar e uma espuma abundante brotou de seus lábios.

Erguendo-se, o herói deu uma sonora gargalhada:

— Dêem-me o arco e minha maça! Tenho de ir a Micenas destruir as muralhas erguidas pelos ciclopes inimigos.

Sua barba negra estava coberta pelos flocos brancos da espuma, e seus olhos raiados de sangue reviravam-se nas órbitas, compondo uma máscara terrível e assustadora. Montado num carro imaginário, Hércules empunhava suas rédeas irreais:

— Eia, cavalos! Adiante, vamos combater os ciclopes!

Hércules saiu nesse constrangedor estado por todo o palácio, enchendo de assombro Megara e os próprios filhos. No seu delírio, enxergando nas crianças apenas monstruosos inimigos, Hércules abateu-as uma a uma, até que em todo o palácio só restaram vivos ele, a esposa e o último dos filhos.

— Ainda vejo inimigos no campo de batalha! — esbravejava o herói demente, disposto a exterminar até o último ser vivo nos arredores.

Sua esposa, enlouquecida de medo e tristeza, tomou nos braços a criança e foi refugiar-se no aposento mais afastado. Hércules, porém, sem recuar diante de nada, arrombou a porta com um golpe de sua maça e estraçalhou com as próprias mãos a mulher e o seu último filho.

No Olimpo, Juno deliciava-se com o espetáculo da ruína de seu desafeto.

Mas Hércules, ainda insaciado e possuído por seu furor, decidira investir contra o próprio pai, Júpiter. Minerva, porém, adiantando-se, derrubou o herói com um raio, antes que ele provocasse novas desgraças. Abatido, Hércules esteve estendido sobre os destroços do palácio durante um longo tempo; quando recobrou a consciência, deu-se conta da monstruosidade que praticara.

— Júpiter, meu pai, o que fiz? — urrou o infeliz, ao ver os corpos despedaçados de sua família.

A deusa Minerva, compadecida, explicou-lhe o que acontecera, isentando-o da culpa, mas Hércules não conseguia se perdoar.

— Matei minha mulher e meus próprios filhos! — exclamava ele, arrancando os cabelos num desespero inigualável.

Tomado pelo remorso, o herói condenou-se ao exílio, decidido a penitenciar-se pelo terrível episódio. Durante muitos anos Hércules vagou sem destino pelas estradas da Grécia, até que, consultando-se com um oráculo, este lhe ordena que fosse ao encontro de Euristeu, rei de Micenas e de Tirinto, primo de Hércules e rival deste pela disputa do trono.

Assim que esteve diante deste personagem, Hércules escutou suas palavras:

— Só há um meio de purificar-se. Você deverá realizar para mim os doze trabalhos que vou lhe explicar.

Após escutar com atenção as instruções de Euristeu, Hércules partiu decidido a cumpri-las, nesta que seria a maior de suas aventuras.

O primeiro trabalho de Hércules consistia em matar o terrível leão de Neméia.

Esse leão era o maior que já surgira em toda a Grécia. Dotado de extraordinária ferocidade, matava qualquer um que cruzasse o seu caminho.

Hércules, assim que esteve frente a frente com o monstruoso leão, puxou de seu arco e descarregou nele todas as suas flechas. O couro do leão era tão grosso, no entanto, que nenhuma delas conseguiu penetrar-lhe.

O herói, abandonando o arco, empunhou sua pesada maça e avançou para a fera. Em seguida descarregou sobre a cabeça dela um poderoso golpe. O porrete, no entanto, esfarelou-se em contato com os ossos duros do leão.

Fugindo para o interior de uma gruta, o poderoso felino ficou no aguardo de uma nova investida do herói. Hércules, desvencilhando-se de todas as armas, decidiu enfrentá-lo com as mãos limpas.

— Veremos, agora, quem pode mais! — exclamou, arremessando-se para o interior da caverna.

Impedindo a saída do animal, Hércules agarrou o pescoço do leão e rolou pelo chão com a fera, até arrancar da boca do animal o seu último suspiro. Feliz com sua vitória, tirou a pele do animal e passou a vesti-la, tornando-se este o seu traje mais característico.

O segundo trabalho de Hércules era derrotar a temida hidra de Lema -uma espécie de serpente gigantesca dotada de várias cabeças, que tinham a particularidade de renascer instantaneamente tão logo eram cortadas, sendo que a do meio era imortal.

Hércules seguiu nessa aventura acompanhado por seu servo Iolaus. Enquanto o criado aguardava, Hércules avançou sobre o pântano de Lema, moradia do terrível animal. Não demorou muito e logo sentiu que algo muito forte enroscava-se em suas pernas, paralisando seus movimentos.

Sacando do porrete, Hércules começou a esmagar uma por uma as cabeças da feroz hidra. No entanto, a cada uma que destroçava, via logo surgir outra em seu lugar.

— Iolaus, acenda um tição e jogue para mim! — gritou ao criado.

Tão logo agarrou o bastão em chamas, Hércules foi cauterizando os buracos de onde surgiam as cabeças, de tal sorte que logo só restou a cabeça do meio — a mais perigosa. Após esmurrá-la com toda a força, sem conseguir, no entanto, fazê-la morrer, o herói suspendeu a hidra e lançou-a no fundo de um profundo abismo. Erguendo em seguida uma imensa montanha, arremessou-a sobre o abismo, enterrando para sempre a hidra.

O terceiro trabalho do herói foi mais modesto.

Diana, a deusa das caçadoras, possuía cinco corças. Quatro delas estavam atreladas ao seu carro, enquanto a quinta, que possuía lindos chifres de ouro, andava à solta pelos bosques. A missão de Hércules era capturá-la e levá-la até Euristeu.

Apesar da aparente facilidade da tarefa, o herói consumiu um ano inteiro nesta busca: a corça era tão ou mais arredia do que a própria dona. Mas ao cabo desse período, Hércules conseguiu, finalmente, apoderar-se do belo animal.

O quarto trabalho era capturar o javali de Erimanto — um javali monstruoso que assolava toda a região. Após enfrentar a fera, arrancando-lhe as presas, Hércules levou-o até Euristeu, que, tomado de pavor diante da visão do animal, correu para dentro de um enorme tonel de bronze.

Vendo Euristeu que nos exercícios de força Hércules era imbatível, decidiu expô-lo a uma missão de natureza humilhante, no seu quinto trabalho:

— Quero que você vá limpar as estrebarias de Áugias.

Áugias era dono de um imenso rebanho e suas estrebarias jamais haviam sido limpas. Montanhas de estrume quase impediam a entrada dos animais.

— Façamos uma aposta — disse Hércules, ao ver-se diante do preguiçoso proprietário. — Caso eu consiga limpar suas estrebarias em menos de um dia, quero que você me dê uma décima parte de seu imenso rebanho.

Áugias, achando graça da pretensão do reles limpador, aceitou o desafio:

— Está bem, senhor limpador de estrume, vamos ver a sua eficiência.

Hércules, sem pestanejar, começou imediatamente o seu trabalho. Durante o dia inteiro, meteu-se até a cintura na montanha fedorenta, sem se importar com a aparente indignidade de sua tarefa.

— Ouro ou estéreo, esta aposta não perco! — dizia, cantarolando. Porém, quando viu que por mais que carregasse montanhas de dejetos para

fora, mais estrume parecia surgir no interior da estrebaria, Hércules resolveu mudar de estratégia. Avistando um rio de águas cantantes que passava ali perto, correu para lá, munido de sua pá. Com ela cavou um imenso desvio, de tal sorte que as águas passaram a correr por ele, indo desaguar em cheio na estrebaria de Áugias.

Quando o proprietário retornou ao fim do dia, encontrou sua cavalariça completamente limpa e seca, pois Hércules teve tempo ainda de fazer com que o rio voltasse ao seu curso normal.

Áugias, no entanto, era um homem sem palavra.

— Adeus, lacaio, e obrigado pelo brilhante serviço — disse, despedindo Hércules.

O herói, diante de tamanha afronta, ergueu nos braços o atrevido Áugias e estrangulou-o.

Os trabalhos de Hércules, porém, não terminaram aí: o sexto consistia em exterminar as aves mortíferas que assolavam o lago Estínfale.

Essas aves eram negras como a noite e tinham asas, cabeças e bicos de ferro, habitando um pântano eriçado de espinhos.

Hércules, sem perder mais tempo, foi em direção ao tal lago.

— Vamos ver as avezinhas — disse, determinado.

Era dia claro ainda quando Hércules chegou à beira do pântano. Um sol imenso ainda estava erguido no céu e não havia nem sinal de nenhuma das aves. Mas Hércules, além de forte, era também esperto. Tirando do bolso de sua pele leonina um par de címbalos, começou a tocá-los com toda a força. Imediatamente uma nuvem escura de aves ergueu-se dos caniços à beira d'água e tapou o sol, transformando o dia em noite. Acendendo um archote, Hércules iluminou a cena, enxergando nitidamente as aves que desciam sobre ele com seus bicos de ferro.

A seguir, com seu poderoso porrete começou a abatê-las aos montes. Cada golpe de sua arma derrubava oito ou dez juntas. Desta forma, conseguiu exterminá-las depois de desferir mais de dez mil golpes. Quando terminou a tarefa, o pântano estava repleto de aves. O ruído metálico e persistente do bico das aves agonizantes ainda ficou retinindo em seus ouvidos por um longo tempo, enquanto se retirava, mais uma vez vitorioso. O sétimo trabalho de Hércules surgiu de um simples capricho feminino.

A filha de Euristeu havia metido na cabeça que queria por todo o modo possuir o cinto e o véu de Hipólita, a rainha das amazonas. Estes preciosos presentes haviam sido dados a ela por Marte, o deus da guerra, em reconhecimento por seu valor e bravura nos campos de combate.

Hércules, sabendo que a inimiga desta vez seria uma mulher, decidiu ser cortês: após conseguir chegar incólume ao país das amazonas, foi bem recebido por Hipólita e retribuiu na mesma medida o tratamento recebido, de tal forma que ela concordou em lhe ceder os acessórios.

Juno, a eterna inimiga de Hércules, no entanto, estava atenta, e conseguiu fazer crer às súditas de Hipólita que Hércules pretendia raptar sua rainha.

Montadas em seus cavalos, as guerreiras atacaram Hércules e seus soldados — pois ele havia ido até lá com um pequeno grupo de homens -, o que provocou uma luta entre as partes, que se estendeu por todo o dia. Hércules, vendo naquilo um sinal de traição, matou Hipólita após terrível duelo.

A rainha, golpeada mortalmente, expirou nos braços do guerreiro, e Hércules pôde levar para a filha de Euristeu as relíquias tão desejadas.

Chegamos ao oitavo trabalho.

Diomedes, filho de Marte e rei da Trácia, tinha quatro maravilhosos cavalos, que expeliam fogo pelas ventas e se alimentavam somente de carne humana. Ora, a diversão principal desse homem cruel consistia em capturar qualquer forasteiro que entrasse em seus domínios e jogá-lo vivo para os cavalos.

Hércules foi incumbido por Euristeu de fazer uma visitinha cordial ao rei Diomedes.

Para quem esmagou duas serpentes vivas, ainda no berço, não eram quatro ou cinco cavalos que iriam lhe meter medo. Por isso o herói foi tranqüilamente cumprir mais essa missão.

— Bom-dia, caro Diomedes! — disse Hércules, assim que se encontrou com o rei.

— Sem dúvida, será um bom dia para mim e para eles — disse o rei, apontando para os cavalos, que arreganhavam os dentes sujos de sangue. — Receio, contudo, que não possa dizer o mesmo do restante do seu dia, pobre forasteiro!

Erguendo um braço, Diomedes fez um sinal para que os seus cavalos avançassem para estraçalhar o visitante. Hércules, entretanto, montando num salto ágil sobre o dorso de um dos cavalos, domou-o com tal arte, que logo o deixou amansado; depois, passando imediatamente para as costas do outro, fez o mesmo, e assim continuamente, até que tinha todos amansados aos seus pés.

Pegando as rédeas de todos, Hércules reconduziu-os de volta ao estábulo. Depois de irritá-los bastante, outra vez, retornou para se entender com seu péssimo anfitrião:

— O que pretende você? — disse o rei, balbuciando nervosamente. Hércules, sem dizer nada, suspendeu o dono dos cavalos numa única mão e o lançou para dentro da estrebaria.

Relinchos e gritos humanos de pavor têm algo em comum, razão pela qual o herói não pôde afirmar com certeza quem havia gritado mais alto enquanto ele se afastava num passo tranqüilo.

— O nono trabalho, preste bem atenção — disse Euristeu -, é o seguinte: quero que você roube os bois do gigante Gerião e traga-os para mim. Aqui está o mapa para chegar ao país onde ele vive.

Sem dizer mais nada Euristeu despediu-se de Hércules. Seguindo as indicações que o outro lhe dera, Hércules chegou sem dificuldade ao país de Gerião.

Informando-se com a gente do povo, Hércules chegou logo ao rebanho onde estavam misturados os animais. Eram bois enormes, da cor do sangue. Guardando-os estavam o gigante Euritião e o cão Ortro, irmão de Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada do inferno.

Ortro era o irmão mais novo do famoso cão e, por isso, tinha somente duas cabeças. No mesmo instante, ao avistar a chegada de Hércules, ele atirou-se em direção ao pescoço do herói.

Hércules fez um rápido cálculo mental:

— Se você fosse como o seu irmão ainda teria alguma chance! — ironizou : herói, antes de quebrar com as duas mãos os dois pescoços do cachorro.

Em seguida atracou-se com o gigante Euritião, derrotando-o, também, com facilidade. Quando já se retirava, levando consigo os bois, Hércules escutou vozes que diziam uma só coisa, em uníssono:

— Aqui está alguém, atrevido, que tem mais de duas cabeças e dois braços! Era Gerião, o proprietário dos bois, que, temeroso de que lhe roubassem seu rebanho, fora pessoalmente guardá-lo. Era, de fato, um adversário para se temer: dos pés à cintura era um gigante normal; porém, da cintura para cima, possuía três troncos. Eram três homens em um.

O gigante avançou com seus seis braços, armados de três espadas e três escudos. Hércules tinha apenas sua maça e o escudo que Minerva lhe dera antes de começar as suas aventuras. Mas para quem já havia derrotado uma hidra de várias cabeças, essa tarefa não era também de meter medo.

Durante uma tarde inteira os dois trocaram golpes, até que Hércules percebeu que se da cintura para cima estava em desvantagem, da cintura para baixo as coisas estavam em pé de igualdade.

Aproveitando um descuido do gigante tripartido, Hércules desferiu um golpe terrível de seu porrete nas pernas do monstro, que caiu de joelhos ao solo, sem poder erguer-se novamente. Tendo-o inteiramente à sua mercê, o herói grego acabou com o gigante, esmigalhando os seus três corpos, um a um.

Quando Hércules voltava desta missão, teve de enfrentar ainda outro inimigo, num episódio que, apesar de não fazer parte dos seus dozes trabalhos, tornou-se muito famoso.

Este inimigo era Caco, famoso ladrão que habitava as cavernas do monte Aventino. Todo mundo que cruzava com Hércules parecia gozar de desmedida estatura, e Caco também era portador de um tamanho descomunal.

Enquanto Hércules dormia sob uma árvore para refazer-se do cansaço, o ladrão insinuou-se em meio ao rebanho e furtou silenciosamente alguns dos bois que o herói conduzia. Este ladrão — como todo bom profissional — tinha lá suas manhas.

Seu método particular de furto consistia em roubar bois e reses puxando-os pela cauda, até a sua caverna. Deste modo, invertendo a posição dos pés dos animais, dava sempre a impressão ao dono ludibriado de que eles não haviam entrado na caverna de Caco, mas, no máximo, saído de lá.

— Ei, gigante, não viu algumas reses perdidas passarem por aqui? — disse Hércules a Caco, quando passava em frente à sua caverna.

— Não senhor, sinto muito! — disse o pilantra, amavelmente. Hércules, apesar de toda a sua astúcia, já ia caindo também no golpe, quando de dentro da caverna ouviu uma das reses raptadas mugir, fazendo com que ele voltasse a cabeça.

— O senhor parece mugir muito bem! — disse Hércules, tomando já seu porrete.

Caco tinha suas partes de monstro, também. Vomitando fogo, o ladrão entrou correndo para dentro da caverna, tapando em seguida a entrada com uma imensa rocha.

Hércules, entretanto, com um soco poderoso, a desfez em mil pedaços.

— Devolva os meus bois, ladrão miserável! — dizia Hércules, furioso.

Dentro da caverna havia uma luz fraca produzida por um archote. O ladrão, temeroso, havia se refugiado mais para o interior. Das paredes pendiam as cabeças ensangüentadas de duas reses, ossos de animais e até de homens — pois o monstro, além de ladrão, era canibal. Mais ao canto havia também galinhas recém-penduradas, mostrando que ultimamente as coisas não andavam nada boas para o ladrão.

— Vamos, ladrão de galinhas, apareça! — ordenou Hércules, esmurrando as paredes.

Chegando a uma galeria profunda, o herói encontrou finalmente o gigante, que sem ter mais para onde se refugiar avançou enlouquecido sobre o herói, vomitando fogo pela boca. Hércules agarrou-o pelo pescoço e torceu-o até que da antiga chama restasse apenas um fiozinho de fogo. Com esta fagulha Hércules acendeu um archote e saiu da caverna, levando consigo os seus bois.

E assim o herói grego retornou para Euristeu, que lhe revelou o conteúdo de sua próxima missão.

— Quero que você prove que é o mais forte dos homens, domando o temível touro de Creta.

Este animal era uma fera sanguinária que devastava toda aquela região.

Hércules chegou a Creta e pegou o touro à unha, obrigando-o a curvar seus chifres afiados em direção à terra, nesta que é uma das menos empolgantes de suas façanhas, pelo seu pouco ineditismo, pois além de Teseu também já ter dominado um que era em tudo idêntico a este, havia também Jasão, que domara não um, mas dois touros parecidos.

Chegara a hora, então, do penúltimo trabalho.

— Você certamente já ouviu falar no Jardim das Hespérides — disse a Hércules o seu desafiador.

— Já, mas não lembro mais do que trata.

— Quando Juno casou-se com Júpiter — começou a explicar Euristeu -. recebeu de presente das divindades amigas várias maçãs de ouro, que nasceram numa árvore situada no jardim das Hespérides.

Euristeu explicou ainda que as Hespérides eram as filhas de Atlas, um dos titãs que moveram guerra contra Júpiter. Derrotado, o gigante ficara obrigado, a partir daí, a sustentar o mundo nos ombros.

Junto à árvore estava postado um imenso dragão, encarregado da guarda dos valiosos frutos.

— Quero que você traga para mim estas maçãs de ouro — concluiu Euristeu Hércules partiu outra vez (e no caminho de mais esta aventura libertou

Prometeu de seu rochedo, onde este fora agrilhoado por ordens de Júpiter, em razão de ter furtado, sem o seu consentimento, o fogo dos céus).

Hércules, pela primeira vez, não conseguira chegar a seu objetivo, e parecia prestes a desistir quando encontrou em seu caminho o exausto Atlas, pai das Hespérides.

"Ninguém melhor do que ele saberá me indicar onde estão as benditas maçãs!", pensou o herói.

— Bom-dia, velho Atlas — disse Hércules, jovialmente.

— Quem está aí? — resmungou o titã, sem poder erguer a cabeça, curvada sob o peso do mundo.

— Eu sou Hércules e preciso de uma informação sua.

— Diga.

— Quero saber onde fica o jardim de suas filhas. Preciso levar as maçãs de ouro que lá estão.

— E por que pensa que eu as daria gratuitamente? Hércules, contudo, já tinha uma proposta a fazer.

— Se você me trouxer esses preciosos frutos, eu carregarei, enquanto isso, o mundo nas costas para você.

Atlas, diante dessa vantajosa proposta, concordou imediatamente. Hércules tomou, assim, o mundo em seus braços, enquanto Atlas partiu em busca das frutas douradas.

Durante vários dias Hércules esteve curvado ao peso do mundo.

— Não é à toa que ele tem esse mau humor todo — resmungou o herói, já com dor nas costas.

Um dia, viu finalmente Atlas regressar com as preciosas maçãs.

O titã a princípio pretendia cumprir com a sua parte, mas depois de ver como era bom estar livre de todo aquele peso, começou a achar que era melhor deixar Hércules para sempre em seu lugar. Atlas teve a franqueza de revelar a Hércules o seu nefando propósito.

— Está bem — disse Hércules, resignando-se aparentemente ao seu destino. — Antes, porém, permita que eu cumpra minha tarefa e leve os pomos preciosos a Euristeu.

Atlas concordou. Nem bem retomou o mundo nas costas, escutou os passos do outro se afastando rapidamente, para nunca mais voltar.

Após alguns dias o herói apresentava diante do rosto satisfeito de Euristeu os pomos preciosos. Agora faltava completar o último dos doze trabalhos.

Euristeu, durante a ausência de Hércules, pensara numa tarefa quase impossível, até que chegou a elaborar seu último plano. "Desta vez mandarei Hércules literalmente para o inferno", pensou.

— Você é realmente valente e intrépido — disse Euristeu ao herói. — Desta vez, porém, vou pôr à prova toda a sua valentia.

— Permita que eu diga que suas introduções começam a se tornar aborrecidas — disse Hércules, que já começava, na verdade, a se cansar daquela longa brincadeira.

— Eis, então, a sua última missão: quero que você desça até o reino das sombras e traga de lá Cérbero, o cão infernal.

— Mas esse cão pertence a Plutão, irmão de meu pai — retrucou Hércules.

— Não me importa a quem ele pertence. Quero que o traga o quanto antes. Hércules, temendo contrariar a vontade de seu pai, Júpiter, decidiu antes ir falar com ele. Depois de lhe explicar os seus propósitos, recebeu do deus dos deuses esta recomendação:

— Está bem, mas não machuque Cérbero nem o retire de lá sem o consentimento de meu irmão.

Tendo a companhia de Minerva e Mercúrio, Hércules chegou a Tenaro, na Lacônia, onde está situada a abertura do inferno.

— Vamos, desçamos por aqui — disse Mercúrio, que tinha a incumbência de conduzir as almas dos mortos até a sua última morada.

Hércules, longe de parecer aterrorizado, tinha, ao contrário, o ar divertido de quem vai ver coisas pouco comuns. Não era por outra razão que tomava sempre a dianteira aos seus dois companheiros, obrigando Minerva a pedir-lhe que moderasse o passo a todo instante.

— Que calma, que nada! — exclamava Hércules, sedento por ver as aberrações que diziam enxamear no reino dos mortos.

Depois de descerem por várias encostas ardentes e fuliginosas, chegaram os três, finalmente, até o Aqueronte, o rio que corta o inferno.

— Ei, barqueiro, ande logo! — disse Hércules, batendo palmas e chamando Caronte, que vinha retornando lentamente de sua viagem anterior.

— Onde pensa que está, atrevido? — gritou o velho, encolerizado, descendo seu remo sobre a cabeça do herói. O pedaço de madeira, entretanto, quebrou-se sobre a cabeça de Hércules como se fosse a frágil lasca de um palito gigante.

Hércules, empunhando sua maça gigantesca, já se preparava para devolver o golpe quando teve sua mão segura por Minerva e Mercúrio.

— Calma, rapaz! — disse Mercúrio. — Deste jeito não chegaremos nunca à outra margem.

Os três embarcaram e seguiram viagem, enquanto o velho remador prosseguia a resmungar:

— Parece que está virando hábito os vivos andarem por aqui... Um dia é Ceres, noutro é Orfeu, agora é este gigante...

— O que está resmungando aí? — disse Mercúrio.

— Minha barca não foi feita para conduzir vivos, isto é que é! — disse o velho, apontando para a madeira.

De fato a proa da barca estava quase na linha da água, ameaçando virar a qualquer momento.

— Calma, já estamos quase chegando — disse Minerva, apaziguadoramente.

Nem bem desembarcaram, Hércules deliciou-se com o espetáculo que tinha diante dos olhos. A primeira coisa que fez foi abraçar-se à sua esposa e aos seus queridos filhos, que a sua funesta loucura havia arrebatado de si.

— Perdoem-me, perdoem-me, eu não sabia o que estava fazendo, não estava em meu juízo — exclamava o herói, em prantos.

Sua esposa e seus filhos, que já sabiam a causa do ato insano, foram compreensivos o bastante para perdoá-lo. Logo depois Hércules seguiu para o interior do inferno, sempre acompanhado de seus guias, Minerva e Mercúrio.

— Cérbero não guarda a entrada do inferno? — perguntou Hércules.

— Certamente já sabem de nosso propósito — disse Mercúrio. — Plutão deve ter mandado que o recolhessem.

No mesmo instante um latido tétrico ecoou nos desvãos dos precipícios.

Enquanto andavam, Hércules ia enxergando muitos personagens que somente conhecia pelos relatos dos mais antigos: Orfeu, que Caronte já citara, passeava amorosamente com sua Eurídice; Adônis preparava-se para retornar à :erra em sua estadia anual entre os vivos; bem como os inseparáveis irmãos Castor e Pólux; Acteão ainda lamentava o azar de ter visto nua a vingativa Diana, porém já restabelecido de seus cruéis ferimentos; além destes e muitos outros, Hércules teve sua atenção despertada por um grupo numeroso de mulheres.

— Vejam, não são elas as belas Danaides?

Sim, eram elas que num constante vaivém iam enchendo um imenso tonel com suas jarras de chumbo. Todas pareciam dispostas a largar sua penosa tarefa para ir conversar com o musculoso herói, mas Minerva apressou o passo dos três, dizendo:

— Não viemos aqui para provocar transtornos na rotina do inferno.

— Eis Plutão em seu trono — disse Mercúrio, após andarem mais um pouco. Diante deles estava assentado o deus dos infernos, tendo ao lado a bela esposa Prosérpina.

— Meu irmão Júpiter já me informou de sua pretensão — foi logo dizendo o deus infernal.

— Sim, preciso levar Cérbero para o mundo dos vivos — disse o herói.

— Tem minha permissão — disse Plutão -, desde que não se utilize de arma alguma que possa ferir meu precioso cão de estimação.

Cérbero, que estava aos pés do deus, estendeu suas três línguas e lambeu a mão de seu dono, em agradecimento.

— Além do mais deve trazê-lo de volta no espaço de tempo mais curto possível — ajuntou, de maneira categórica.

Hércules aceitou os termos do deus e aproximou-se do cão para levá-lo. Cérbero, contudo, desvencilhando-se daquele estranho, correu para dentro duma . ova negra e malcheirosa.

— Vá buscá-lo — disse Plutão. — Ou achou que bastaria passar a mão em suas três lindas cabeças?

Hércules, que já havia enfrentado e derrotado o irmão de Cérbero, entrou na cova escura e após receber várias dentadas do insociável cão conseguiu domá-lo, amarrando suas três bocas num laço seguro.

O cão passou ganindo diante de Plutão, que procurou acalmá-lo:

— Calma, Cérbero fiel, logo você estará de volta.

E foi assim que Hércules completou seu último trabalho. Depois de levar o cão infernal até Euristeu — que teve a má sorte de levar em sua canela, ao mesmo tempo, três dentadas do vingativo animal -, Hércules levou-o de volta para Plutão, encerrando assim a série de trabalhos e obrigando-nos a encerrar aqui, também, a crônica de suas vitórias.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:29

O POMO DA DISCÓRDIA

— Isso é que é festa de casamento! — disse o cavalo Bálios a seu amigo Xantos, também um eqüino. — Que alegria nos rostos, que harmonia vibrando no ar!

— E, não resta dúvida. Isto é, pelo menos por enquanto... — respondeu Xantos, que guardava um ar de dúvida em meio ao alarido dos festejos.

— Como assim? — quis saber Bálios, arreganhando seus grandes dentes amarelos.

— Bem, se ela chegar, como imagino que deve estar para acontecer, você logo entenderá o que quero dizer... — respondeu o segundo cavalo, balançando a cauda e a grande cabeça.

Xantos referia-se a Discórdia, a única deusa que não fora convidada para as maravilhosas núpcias de Tétis com Peleu, rei de Ftia e futuro pai do grande herói Aquiles, que se realizava naquele momento em frente à caverna do centauro Quíron.

"Quem, aquela víbora da Discórdia?", dissera Tétis, ao ser sugerido o nome da desagradável divindade para integrar a lista dos convidados. "Nem morta esta praga colocará os pés na minha festa!", esbravejara a mais bela das nereidas a Júpiter.

Graças a isto a festa transcorrera até ali em maravilhosa harmonia. Por tudo só havia sorrisos, brindes e congratulações.

— Querida Tétis! — dissera Vênus, abraçando-a, banhada em riso. — Sua festa não poderia estar mais encantadora!

Peleu, por sua vez, recebia os efusivos cumprimentos de Apolo, o qual dedilhara momentos antes a sua afinada lira em homenagem aos noivos.

Quanto aos dois cavalos falantes que abrem esta narrativa, eram o presente que Netuno, o deus dos mares, havia ofertado ao novo casal. Ambos se mantinham juntos, a observar deliciados toda aquela alegria.

— Verdadeiramente uma festa divina! — disse Bálios a Xantos, num transporte de entusiasmo.

Este, no entanto, continuava a fremir desconfiadamente as suas narinas, com a intuição peculiar que têm os animais para farejar as grandes catástrofes.

— Vênus amada, venha até aqui! — disse Juno, esposa de Júpiter, que estava numa conversa animada com Minerva, a deusa que nascera da cabeça do pai dos deuses.

— Queridas, há quanto tempo! — exclamou a deusa do amor, parecendo felicíssima ao rever suas amigas. — Nossa, nunca as vi tão belas! — acrescentou enfaticamente.

— Ora, você é que está simplesmente deslumbrante! — disse Minerva, arregalando seus belos olhos, ao mesmo tempo em que ajeitava melhor a alça direita do seu peplo recamado de motivos guerreiros.

Enquanto essa encantadora troca de elogios prosseguia, algo de estranho, ocorria sobre as cabeças das deusas. Uma grande sombra ocultara o sol, tornando a atmosfera gélida e opressiva. O cavalo Bálios, contudo, fora o único a perceber a estranha mudança. Em vão, porém, procurou divisar no céu a misteriosa nuvem.

— Não é nuvem — disse seu colega Xantos, com a placidez dos profetas quando vêem confirmar-se as suas mais negras profecias. — É ela.

Sim, pairando acima das três amigas, lá estava a terrível deusa Discórdia, tornada invisível por suas artes mágicas. Os dois cavalos, no entanto, podiam vê-la perfeitamente, com os emaranhados cabelos de serpente presos por uma tiara ensangüentada encobrindo seu olhar desvairado. Ao mesmo tempo, de sua boca escorria uma espuma abundante que ela limpava a intervalos com as mãos de unhas tintas de sangue.

— Ora vejam, que detestáveis hipócritas... — grunhiu a repulsiva criatura, fazendo esgares de ódio que excediam em horror aos da temível Górgona. — Quem ouve pensa que são as menos vaidosas das criaturas!

— Não, não, queridas! — teimava Vênus — Vocês estão absolutamente imbatíveis!

— Argh, puáá! — fez a abominável deusa, cuspindo para baixo uma baba vermelha e espessa. — Vamos acabar já com este fingimento todo.

Imediatamente a Discórdia, sedenta por uma disputa, sacou de suas vestes uma maçã dourada que reluziu em suas mãos. Com a mais afiada de suas unhas inscreveu, então, no fruto, a seguinte frase: À mais bela.

— Muito bem, agora veremos até onde irão as tais cortesias — disse, perfidamente, largando o fruto descuidadamente no meio das deusas.

Vênus, Juno e Minerva ainda estavam trocando animados elogios, sentadas cada qual em um balanço de flores, quando a primeira escutou um ruído aos seus pés. Tum-tum-tum-tum.

— O que é isto...? — disse a deusa do amor, atraída pelo ruído fofo do pomo rolando na relva.

Juno ergueu seus olhos e viu o fruto faiscar nas mãos de Vênus.

— Que maravilha é esta que aí tens? — disse a esposa de Júpiter. Mas Vênus estava inteiramente absorta na contemplação do esplêndido

fruto.

Minerva, por sua vez, deu um pulo de seu balanço e também foi ver mais de perto o que era aquilo que tanto brilhava.

— Uma maçã de ouro! — exclamou, aproximando o rosto.

— Esperem, há algo escrito nela — disse Vênus, girando o fruto na mão. Um brilho intenso banhou o rosto das duas.

— A mais bela! — gritaram as três, enlevadas. Durante alguns minutos estiveram mergulhadas num estupor, até que Minerva finalmente quebrou o silêncio:

— Mas... de onde veio isto, afinal? As três perscrutaram tudo ao redor, mas sem poder divisar ninguém, a não ser os dois cavalos, que de longe as observavam com as orelhas em pé.

Quando Vênus baixou os olhos de volta, entretanto, só encontrou um vazio entre os dedos, pois Juno já havia se apoderado avidamente do fruto.

— A mais bela...! — repetia ela, como que enfeitiçada.

— Sim, mas não traz o nome da eleita? — disse Minerva.

— Ora, querida, e precisa? — disse Vênus.

— Claro que não — disse Juno apoderando-se vivamente da jóia. — Está claro que foi endereçada a mim.

Vênus e Minerva num primeiro momento, perderam a voz, enquanto Juno. esfregava em suas vestes o fruto, parecendo prestes a dar-lhe uma dentada.

— Só um momento, meu amor — disse Vênus, raptando o pomo das mãos de Juno. — Quem tiver o bom senso de procurar direito o nome da homenageada irá logo descobrir que só pode ter sido enviado a mim.

As três então se reuniram avidamente em torno do pomo, tentando divisar cada qual o seu nome:.

— Ali está! — gritou Juno. — Vejam se não é a minha inicial gravada nitidamente.

Não, não era, contestaram decididamente as outras.

— Pfff... E apenas uma falha do fruto — disse Minerva com um muxoxo de desdém.

Enquanto a disputa prosseguia, a perversa Discórdia esfregava ao alto as suas grandes mãos, cheia de satisfação.

— Basta, suas idiotas! — bradou Vênus, mandando às favas o resto de sua boa educação. — Como ousam atribuir a si uma homenagem que está claramente dirigida a mim?

— Atrevida! — rugiu Minerva. — Cale a boca e devolva já o meu fruto!

A disputa se acendera definitivamente. Os olhos das três agora despediam chispas de puro ódio enquanto o pomo passava de mão em mão a cada descuido, o que só servia para inflamar ainda mais os ânimos. Ao mesmo tempo os dois cavalos continuavam a observar a disputa, que estava prestes a degenerar numa troca de tapas.

— Vamos avisá-las do que realmente se passa — disse Bálios ao seu colega eqüino.

— Está louco? — disse Xantos, valorizando sempre a prudência. — Se em briga de mortais não convém meter a colher, o que dirá de uma briga de deusas? Além do mais, sabe-se lá que castigo poderá nos impingir aquela megera, causadora de toda a discórdia.

E assim transcorreu o restante da festa, num clima de rancor indisfarçado. O fel já havia sido deitado na taça do hidromel e agora só restava todos regressarem desconsolados para suas casas. Quanto às deusas, teve início naquele dia uma desavença que se estendeu por vários anos, até que um dia Júpiter resolveu pôr um fim à amarga querela.

— Mercúrio, venha cá! — disse o deus supremo a seu filho dileto.

— Pois não, meu pai — respondeu o jovem dos pés ligeiros.

— É chegada a hora de pormos um fim nesta briga insensata que até hoje só nos trouxe desgostos.

— O senhor refere-se à disputa pelo pomo dourado? — disse Mercúrio.

— Exatamente — disse Júpiter. — Quero que você conduza as três pretendentes até o alto do monte Ida para que Páris, filho de Príamo, decida de uma vez a quem pertence este berloque maldito.

Páris era um jovem pastor, filho do poderoso rei de Tróia, o qual fora abandonado às feras por seu pai logo ao nascer devido a uma funesta profecia que o apontava como causador da futura ruína da sua pátria. O menino, no entanto, sobrevivera, tendo sido primeiro alimentado por uma ursa e logo depois criado por um casal de pastores.

— Está bem, meu pai — disse Mercúrio, ajeitando já as suas sandálias aladas. — Mais alguma coisa?

— Está dito tudo — disse o deus supremo, pondo fim à conversa.

No mesmo dia, Mercúrio reuniu-se às três querelantes, que, mesmo emburradas umas com as outras, resolveram acatar judiciosamente a ordem de Júpiter.

Em breve chegaram ao alto do monte Ida, onde encontraram o jovem Páris apascentando seu rebanho. O jovem levara até ali uma vida sem grandes emoções, e neste dia mostrava-se especialmente aborrecido.

— A verdade é que esta calma toda começa já a me irritar... — disse ele, erguendo os olhos para o alto, depois de observar pela milésima vez as expressões sempre inalteravelmente aborrecidas do seu gado. De repente, porém, quando desceu os olhos de volta à Terra, viu postadas diante de si as figuras majestosas das três divindades mais belas do Olimpo e do divino mensageiro de Júpiter.

— Pelos deuses! — exclamou Páris, assombrado. — Estarei sonhando? Mercúrio então adiantou-se, dizendo:

— Ó jovem Páris, você foi agraciado com uma honra que raras vezes terá cabido a um simples mortal.

— Que honra, ó mensageiro divino? — exclamou o pastor, assombrado.

— Meu pai decidiu, em sua soberana onipotência, que você será árbitro de uma árdua disputa, que tanta inquietude tem trazido ao antes ameno Olimpo.

Mercúrio então contou toda a história, que Páris acompanhou boquiaberto. As três deusas, a cada passo do relato, sentiam renovar-se em seus peitos as chagas da velha contenda, olhando umas para as outras com renovado ódio.

— Mas que justiça poderei dispensar eu, pobre pastor, a três deusas que por definição são sábias e justas?

Mercúrio deu um leve pigarro, algo desconcertado, interrogando o pastor:

— Júpiter confia no seu discernimento, e se lhe entregou esta tarefa é porque tem razões de sobra para pensar assim. Não cabe a você, pobre mortal, vasculhar os argumentos da divindade suprema! — acrescentou Mercúrio, pondo um fim nas recusas de Páris.

Páris, então, não tendo outro jeito, pensou um pouco e disse consigo: "Já sei como farei para contentar a todas e não incorrer na cólera de nenhuma!"

— Vou dividir o pomo em três — anunciou, aliviado. — Desta forma farei justiça à beleza de todas.

Mas nenhuma delas aceitou essa solução conciliatória. "Como?! E admitir que não sou a mais bela?", pensaram ao mesmo tempo as três deusas, iradas. Além do mais, revelou-se impossível repartir o pomo dourado. Não vendo outra solução, Páris decidiu escutar os argumentos de cada uma das deusas, em separado. Primeiro chamou Juno, que se apresentou repleta de argumentos.

— Um dos atributos da beleza é ser justa, meu jovem — disse a esposa de Júpiter, que achava-se um exemplo de Justiça, sentando-se ao lado de Páris. -Por isto confio no seu julgamento.

O pastor, agora investido da autoridade de juiz, decidiu agir como tal, fazendo ouvidos moucos à lisonja da deusa. Juno, então, decidiu recorrer logo às suas razões:

— Sou esposa do soberano do Olimpo, lembre-se sempre disto, meu jovem. Por isto, posso oferecer-lhe o que nenhuma das outras jamais poderá. Saiba, pois, que farei de você soberano de toda a Ásia e o homem mais rico do mundo. Todas as cabeças se curvarão assim que for anunciada, por arautos magnificamente trajados, a sua augusta presença, e a sua vontade será tão importante que antes mesmo de manifesta será adivinhada por seus fidelíssimos súditos.

Páris escutou os argumentos de Juno com toda atenção e reverência; mas em seu íntimo já havia decidido que não cederia nem a honras nem a riquezas. "Tão somente Têmis, a deusa da justiça, irá inspirar os termos de meu julgamento", pensou o rapaz. Por isto, mandou chamar logo Minerva, não sem antes garantir àquela que partia que a mais cristalina justiça seria o farol cintilante de seu julgamento.

A deusa da guerra aproximou-se em seguida, e num passo firme foi logo dizendo:

— Belo pastor, bem sei que seu julgamento haverá de me ser favorável. Por isto afirmo que muito em breve você será pastor não mais de vacas ou de carneiros, mas dos mais bravos soldados que jamais um comandante guiou neste mundo. Ao menor comando que sair dos seus lábios, legiões inteiras de guerreiros levantar-se-ão como um único homem.

Mas Páris não desejava comandar exércitos, contentando-se em guiar com clareza e retidão os seus próprios instintos. Assim, depois de dispensar gentilmente a deusa da guerra, pediu que Vênus viesse até si para fazer a sua defesa.

A deusa do amor, mais ousada que todas, tomou então nas mãos o rosto do jovem Páris e o aproximou tanto do seu que os lábios quase se tocaram.

— Veja como sou bela — disse a deusa, com uma entonação absolutamente irresistível. — E no entanto tive de admitir, desde a primeira vez em que o vi, que minha beleza finalmente encontrara um símile digno dela, meu belo rapaz. Certamente, se eu fosse um homem, aspiraria a ter o encanto dos seus belos traços — completou a sedutora deusa, percorrendo com o dedo o desenho do rosto de Páris.

— Suas palavras não poderiam deixar, generosa deusa, de confirmar a beleza inteira da sua formosa natureza — disse Páris, procurando ser gentil diante de tamanho elogio. — Mas receio que excedam um pouco à verdade.

— Não, jovem encantador, digo apenas o que meus olhos podem confirmar — ajuntou Vênus, pronta para expor seu argumento principal. — Venho, no entanto, oferecer a você um amor que excederá a qualquer outro que homem algum jamais aspirou.

Páris bebia insensivelmente as palavras da deusa.

— Existe uma rainha mais bela que todas e que, a exemplo de mim, é também filha de Júpiter. Esta mulher foi gerada pela belíssima Leda, filha do rei da Etólia, e é hoje esposa de Menelau, rei de Esparta.

— Mas quem é ela, ó deusa? — disse o pastor, incrédulo.

— Ora, meu tolo efebo, estou falando da bela Helena, a mulher mais cobiçada de toda a Hélade! — disse a deusa, triunfante. — Se me der o pomo, farei com que ela se renda totalmente aos seus encantos. Você será, assim, o homem mais feliz a pisar sobre a Terra e invejado mesmo pelos deuses!

— Confesso que não sei de quem se trata... Mas não posso negar que já sinto meu peito incendiado por algo que não sei ainda definir — disse Páris, confuso.

Mal sabia, contudo, o jovem pastor, que Cupido, o filho de Vênus, estivera o tempo todo oculto atrás de uma árvore e que, a um sinal de sua mãe, havia acertado uma de suas flechas certeiras bem no seu coração.

— Mas ela é casada... — disse Páris, agoniado. — Como poderei esperar que ela deixe esposo, reino e súditos para ficar comigo, um pobre e ignaro pastor?

— Nada temas, meu tolo — disse Vênus com o mais sedutor de seus sorrisos. — Não é a própria deusa do amor quem se propõe a ser a fiadora e garantia do seu amor?

Páris, então, completamente rendido às razões da deusa, outorgou-lhe finalmente o prêmio do pomo dourado. Mal sabia, porém, que com isto iria acender a ira das outras duas deusas, Juno e Minerva, e que sua funesta paixão pela bela Helena seria o estopim da mais terrível guerra que a Antigüidade conheceria.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Augusto Butterfield em Qua 30 Maio 2012, 15:41

Olhe bem esta história, no final veja que foi o destino, e que Hera se redimiu com os filhos de Zeus a partir daí (Não que ela aceite-os com MUITO amor)

A MORTE DE HÉRCULES

I — O IDÍLIO DO HERÓI

— Hércules, querido, não esqueça de passar uma vassoura no palácio depois de terminar o seu bordado.

Ônfale, rainha da Lídia, estava descansando em uma cadeira de encosto na balaustrada do seu palácio; fazia frio e ela vestia a pele do leão de Neméia, que Hércules, seu marido, abatera em um de seus famosos "trabalhos".

— Varrer todo o palácio de novo?! — disse uma voz rouca vinda lá de dentro.

— Uma vez por semana é muito para você? — disse a rainha, erguendo levemente a cabeça. — Para quem limpou os estábulos de Augias — e você sabe em que estado eles estavam! -, o que é passar uma vassourinha por aqui, uma vez por semana?

Ônfale estava ligeiramente irritada: nos últimos tempos seu marido estava se tornando cada vez mais preguiçoso e resmungão.

Escutaram-se ainda alguns resmungos inaudíveis vindos do interior, e depois seguiu-se um silêncio. Ônfale passou a mecha para trás da orelha e apurou o ouvido.

"Sim, ainda está fiando o linho...", pensou, relaxando um pouco.

Hércules, com efeito, fora obrigado a casar-se com a rainha por conta de uma punição que recebera por ter matado o seu amigo Ifítus. Tal sentença lhe fora dada em Delfos, onde fora lavar-se desse crime. O oráculo de Apolo condenou-o à escravidão por três anos, e Hércules foi vendido por Mercúrio a Ônfale. Agora, passava dias inteiros diante da roca, lidando com o fuso e os fios, como uma criança lida com seu brinquedo — ou como uma mulher lida com suas tarefas.

"Como o maior herói da Grécia pôde ter-se afeiçoado tanto a esta distração?", pensou ainda a rainha.

Ônfale ergueu-se. Depois de ajeitar melhor a pele sobre os ombros, rumou para o quarto do casal. Tão logo entrou na peça avistou a pesada maça do esposo largada a um canto. Por que será que, por mais que a escondesse, ela sempre estava à vista? Seria um signo, um sinal de algo que permanecia latente — a virilidade de seu esposo, quem sabe, que a qualquer momento poderia retornar?

A jovem, entretanto, referia-se aqui a outra espécie de virilidade. Hércules não deixara nunca de cumprir com seus deveres conjugais; na condição de escravo da rainha, ele se mostrara bastante dócil quanto a esta parte do acordo, entendendo que ela era a parte mais agradável do rol de suas obrigações.

Esta, aliás, era outra coisa que também sempre a intrigara: por que Hércules, o homem mais forte do Universo, páreo até mesmo para os deuses, tinha tamanha facilidade em servir? Um homem com aquela força descomunal, aquela ira tão fácil de explodir, e que, no entanto, não contestava nunca quando alguém vinha pôr-lhe a canga no pescoço! Com que facilidade, por exemplo, mostrara-se disposto a cumprir as ordens de Euristeu, seu sórdido primo, um sujeito tão covarde que jamais recebia pessoalmente o herói, mantendo sempre preparado um jarro de bronze onde pudesse se refugiar, caso este resolvesse atacá-lo! Será que o divertia o fato ter de obedecer a alguém sabidamente inferior? Ou era apenas um senso de dever que os deuses haviam insulado em si para contrabalançar o seu primitivismo anárquico e feroz?

Ônfale pensava em todas estas coisas enquanto observava o marido sentado diante da roca. Hércules vestia roupas femininas e parecia não se importar nem um pouco com isto. Quem se atreveria a debochar dele, afinal?

— Hércules, tenho notado em você uma certa inquietação, agora que o prazo final de nosso casamento se aproxima — disse a rainha, que não sabia dizer, sinceramente, se lamentava que tal fim estivesse próximo.

O herói largou por um momento o fio que enganchara no fuso e comentou:

— De fato, acho que ando cansado disto tudo.

— Espero que eu não esteja incluída no seu nisto tudo — disse Onfale, fingidamente magoada.

— De forma alguma! — disse Hércules, erguendo-se. As pregas do seu manto liberaram-se e o tecido de seu vestido lhe desceu até os pés. — Você tem sido uma esposa — e uma ama — maravilhosa!

Hércules, vestido de mulher, estreitou nos braços a rainha envolta em sua pele de leão.

— E diversão não lhe faltou aqui — disse a esposa. — Você liquidou dois malfeitores que aterrorizavam este país e enfrentou até uma serpente monstruosa.

— Pois é, mas acabou, e agora estou, pela primeira vez, me sentindo um homem preso.

Onfale sabia que ao vencer o prazo Hércules lhe daria as costas. E quem era ela para manter seguro um homem daqueles, uma vez que ele decidisse que era hora de ir embora?

— Muito bem, então que seja assim! — disse a rainha.

Onfale foi até o canto onde estava a poderosa maça do herói e, pegando-a, aproximou-se de Hércules.

— Para que isto? — perguntou ele, com um sorriso.

— Em nome dos deuses, a partir deste instante eu lhe devolvo a liberdade! — disse ela, batendo levemente com o porrete, primeiro no ombro esquerdo e depois no direito do herói.

— Já é hora de deixar de usar isto, também — disse ela, despregando as vestes femininas de Hércules e conduzindo-o para o leito do casal.

— Desde que você me devolva isto — disse Hércules, arrancando num puxão a pele de leão que envolvia os ombros frágeis da rainha. Onfale deu uma volta sobre si mesma e foi cair estatelada sobre o leito de macias penas.

Um sorriso satisfeito brilhou, afinal, nos lábios da rainha: Hércules voltara a ser o mesmo, outra vez.

II — O DUELO DE HÉRCULES E AQUELÓO

Durante o tempo em que estivera servindo à rainha da Lídia, Hércules havia se lembrado muitas vezes de uma promessa que havia feito ao herói grego Meleagro, quando de sua visita aos infernos para trazer à superfície Cérbero, o temível cão de três cabeças. Ele havia prometido à sombra de Meleagro morto que se casaria com sua irmã Dejanira, filha do rei de Calidon, tão logo retornasse à Terra.

Uma vez liberto, Hércules, premido por mais esta missão — mais uma, com efeito, em sua vida —, partiu logo para Calidon. Entretanto, ao chegar lá descobriu que Dejanira já tinha um pretendente — um grande pretendente.

— Oh, lamento, grande Hércules, mas Aquelóo, filho do Oceano e de Tétis, já pediu a minha mão em casamento! — disse Dejanira, sinceramente decepcionada.

"Lamento, grande Aquelóo, filho do Oceano e de Tétis, mas a mão da adorável Dejanira será minha!", pensou Hércules, já pronto para mais uma disputa.

Empunhando sua maça e envergando seu traje característico, o herói foi em busca do seu rival.

Aquelóo, o mais célebre de todos os rios que banham a Grécia, ficou furioso ao saber das pretensões de Hércules.

— Como você se atreve a pretender tirar de mim a minha noiva? — disse o rio, espumando de raiva.

— Lamento, poderoso rio — disse Hércules, raspando sua clava sobre o solo -, mas se trata de uma promessa feita a uma sombra, e promessas desta natureza devem ser cumpridas custe o que custar.

— Não custará menos do que a sua vida! — disse, num rugido, Aquelóo. — Mas não se preocupe, logo estará diante do irmão de Dejanira e então você poderá se explicar melhor.

Imediatamente os dois adversários lançaram-se ao ataque. Era tudo o que Hércules mais queria: poder empunhar outra vez a sua maça e desferir a torto e a direito os seus poderosos golpes.

Aquelóo, sentindo o poderio do adversário, transmudou-se em uma serpente gigantesca.

— Serpente, senhor rio? — disse Hércules, com ar de mofa. — Ora, se estrangulei uma no próprio berço...

Hércules agarrou a cabeça da víbora colossal e deu-lhe um nó tão forte que Aquelóo viu-se obrigado a desvencilhar-se daquela forma e assumir a de um grande touro de ventas negras como a noite.

— Agora verás o poder do meu arremesso! — disse o touro, escarvando o chão e levantando atrás de si uma nuvem de poeira que sufocou a cidade inteira.

— Venha, então! — disse Hércules, lançando longe a sua clava e esfregando as duas mãos, que mais pareciam dois potentes malhos.

Nem bem o touro monstruoso havia se arremessado, cego de ódio, quando Hércules, dando um pulo ágil para o lado, agarrou-se aos cornos do animal, seguindo montado em suas costas. O touro correu alguns metros, mas foi obrigado a parar e ajoelhar-se logo em seguida, tão logo Hércules ameaçou quebrar-lhe os chifres.

— Está bem, você venceu, você venceu! — gritou Aquelóo, agoniado.

— Não, ainda não — gritou Hércules, arrancando com um golpe violento um dos cornos do animal.

Aquelóo despediu um urro formidável e terminou de cair ao solo, enquanto Hércules pulava para o chão, de posse do precioso chifre.

— Aqui está, podem levá-lo consigo! — disse Hércules às Náiades, ninfas dos regatos, que assistiam aterradas ao pavoroso embate.

As ninfas correram logo a se apoderar do corno e o encheram de frutos e flores, dando origem assim à cornucópia — símbolo da fertilidade, riqueza e abundância — ou pelo menos a uma delas, já que havia uma outra, segundo a tradição, feita do chifre de Amaltéia, a vaca que amamentara a Júpiter.

E foi desta maneira que Hércules conquistou a mão de Dejanira.

III — O CENTAURO NESSO

Infelizmente, o gênio irritadiço de Hércules não permitiu que pudesse ter uma vida calma com a sua nova esposa, eis que um dia, estando à mesa, matou num acesso brusco de cólera o pajem, filho de um amigo do rei de Calidon, simplesmente porque este lhe derramara em cima um pouco de vinho.

Hércules foi obrigado, então, a se exilar para expiar este desastrado crime, levando consigo a infeliz princesa.

— Não importa, amado Hércules — disse Dejanira, confiante -, para onde você for eu também irei!

Partiram, e um dia, chegando à beira do rio Aveno, não tiveram outro jeito senão atravessá-lo.

— Veja, Hércules, há um barco lá no meio do rio! — disse Dejanira, abanando a mão para o barqueiro.

— Eu conheço aquele sujeito — disse Hércules, com a mão em pala sobre os olhos, avistando a figura que conduzia o barco. — É o centauro Nesso, já nos defrontamos numa de minhas inúmeras batalhas contra os centauros; eu o expulsei para esta região.

O centauro aproximou-se lentamente com sua barca; parecia temeroso de seu reencontro com o velho inimigo.

— Pode encostar, viemos em paz! — disse o herói ao barqueiro.

Hércules, querendo testar a força dos seus braços, preferiu ir a nado, cometendo, no entanto, a imprudência de deixar que o antigo desafeto ficasse encarregado de transportar sua esposa até a outra margem.

Nem bem havia chegado lá quando escutou os gritos de Dejanira.

— Socorro, Hércules, me salve! — dizia ela, no meio do rio, lutando para se desvencilhar dos braços de Nesso, que, dez vezes mais imprudente, tentava violentar a esposa do herói, talvez para se desforrar da antiga derrota.

Hércules, então, sacando com toda a rapidez o seu arco e enganchando nela uma flecha embebida no veneno da hidra de Lerna, disparou a seta, que foi cravar-se no peito do agressor.

Nesso tombou ainda sobre a barca, mas antes de morrer disse a Dejanira:

— Dejanira, perdoe minha atitude! Estava louco de desejo pela sua maravilhosa beleza. Quero também que Hércules perdoe tudo o que lhe fiz: aqui está algo que lhes poderá ser útil.

Tomou, então, um pouco do seu sangue envenenado e, colocando-o num pequeno recipiente, entregou-o a Dejanira, dizendo:

— Tome, guarde esta pequena porção de meu sangue. Quando você estiver em grave risco de perder o seu amado Hércules, basta que embeba neste líquido qualquer peça de roupa e faça com que ele a vista em seguida. Desta forma terá garantido para sempre o amor do seu marido.

Nesso morreu antes que a barca encostasse na outra margem, e fez bem, pois Hércules estava pronto a dar cabo do seu último alento de vida tão logo tivesse o centauro em suas mãos.

IV — A TÚNICA DE DEJANIRA

Hércules e Dejanira instalaram-se na Tessália. Ali, o herói foi encarregado de chefiar diversas expedições pelas redondezas, e numa delas conseguiu trazer como despojo a princesa Íole, filha do rei Eurito, que este recusara certa feita a lhe entregar por esposa, mesmo tendo Hércules se saído vencedor de um concurso de tiro ao alvo cujo prêmio era a mão da bela princesa.

— Aí está como se dão as coisas neste mundo! — disse Hércules, carregando em triunfo a assustada Íole. — Seu pai, àquela época, não quis me dá-la para esposa; pois agora matei-o e tomo-a como minha concubina.

Hércules, no dia seguinte, resolveu parar num determinado santuário para agradecer aos deuses por mais esta vitória.

— Licas, venha cá! — disse ele, chamando seu fiel companheiro. — Vá até Dejanira e peça-lhe que me mande uma túnica limpa para que possa me apresentar com dignidade diante dos deuses e lhes oferecer a minha olorosa hecatombe.

Dejanira, entretanto, temerosa da rival, lembrou-se do remédio que Nesso lhe dera antes de morrer. Deu, então, a Licas, uma túnica embebida no sangue do centauro Nesso.

— Vá, corra até o meu esposo e dê-lhe isto para vestir! — disse Dejanira, esperançosa.

Tão logo Licas chegou onde Hércules estava, lhe estendeu a túnica, que o herói vestiu no mesmo instante.

Nem bem havia feito isto, porém, quando começou a sentir que a veste lhe picava por todo o corpo.

— Que raio de roupa é esta? — perguntou o herói para o servo.

— É a túnica de Dejanira — disse Licas, confuso.

Hércules lutou para se desvencilhar daquela veste incômoda, mas quanto mais tentava desapertá-la, mais ela grudava-se às suas carnes.

— Oh, que dor terrível é esta? — disse o herói, dando um grande grito que atroou as montanhas ao redor.

Licas, apavorado, tentava ajudar o amo, mas de nada adiantava. Hércules, então, no seu último assomo de cólera, agarrou Licas pelo pé e lançou-o contra o maciço rochoso, matando-o na hora.

— Aí está, traidor, o preço da sua perfídia! — disse ele, imaginando que se tratasse de alguma armadilha urdida por Licas e Dejanira para liquidá-lo.

Mas as dores nem por isso diminuíram ou cessaram, tornando-se cada vez mais excruciantes. Um fogo interno queimava o corpo de Hércules, que deitado sobre o pó rolava de um lado para o outro, ganindo como um Titã em chamas.

— Oh, dor horrível que me consome os ossos! — gritava ele, enterrando as unhas para tentar arrancar a túnica envenenada. Entretanto, estava ela tão aderida ao seu corpo, que junto com os pedaços do tecido vinham pedaços ensangüentados da sua própria pele.

Hércules compreendeu, então, que era o seu fim. Julgando-se vítima da vingança de sua mulher, o herói tomou as suas coisas e, acompanhado de seu amigo Filoctetes, subiu até o monte Eta.

— Filoctetes, amigo meu, deixo a você o encargo de construir agora a minha pira funerária, pois que meu corpo não tem força mais nem para suster-se em pé.

De fato, do antigo Hércules não restava quase nada. Seu corpo estava reduzido a um pobre feixe de ossos, e foi uma caveira barbada quem pediu este favor a Filoctetes, não um rosto humano.

— Em paga deste último favor que você me faz, Filoctetes amigo — disse Hércules, já deitado em sua pira -, deixo-lhe meu arco e minhas flechas; guarde-as em segredo e jamais revele a ninguém o local onde agora arderá a minha pira.

Filoctetes tomou a tocha e chegou-a até a pilha de madeira. No mesmo instante um raio reboou nos céus e desceu até a pira, fazendo com que a fogueira ardesse instantaneamente, de sorte que em pouquíssimos instantes nada mais havia do corpo de Hércules.

Dejanira, ao saber da desgraça, suicidou-se, vencida pelo remorso. Quanto ao espírito de Hércules, este deu entrada no Olimpo no mesmo dia e foi alçado à condição de deus por seu pai, Júpiter, e recebeu dele Hebe, deusa da juventude, por sua nova esposa, graças a Juno que lhe dera como remissão.
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Lincy R. Ghywood em Qua 30 Maio 2012, 15:54

:what?:
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Re: Sobre Hera

Mensagem por Alexey Rzaenov em Qua 30 Maio 2012, 16:34

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Re: Sobre Hera

Mensagem por Darrian Winterhold em Qua 30 Maio 2012, 17:10

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Re: Sobre Hera

Mensagem por Jenn Curtis em Qua 30 Maio 2012, 17:19

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Eu poderia fazer uma daquelas frases todas bonitinhas e enormes falando onde eu estou e etc, mas acontece que to com preguiça.

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Re: Sobre Hera

Mensagem por Ana M. Thernadier em Qua 30 Maio 2012, 19:16

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